Todo Rio Resiste Mar : Cartografias de Memorias Afrolatinas
Abstract
- Abstract
- Essa viagem textual nos leva por caminhos de transformação corporal-emocional-espiritual que abrem horizontes para a imaginação criativa de artistas afrodescendentes da Colômbia e do Brasil. Por via de uma sinergia de meios artísticos como poesia, documentário, memórias, performances coreográficas e musicais, o/a leitor/a-espectador/a-ouvinte acompanha os movimentos dos corpos, as lembranças, os sonhos e as ilusões das pessoas enquanto elas meandram por territórios geográficos complexos onde enfrentam novas correntes, ganham impulso, ocasionalmente são ameaçadas de dissolver-se indefinidamente, apenas para ressurgir, adquirir novas tonalidades e florescer. A coleção é produto de uma pesquisa-ação participativa que explora e experimenta modos de cocriação de conhecimentos, refletindo sobre a (re-)existência individual e coletiva por meio de práticas artísticas em comunidades periferizadas.
- es Este viaje textual nos lleva por caminos de transformación corporal-emocional-espiritual que abren horizontes a la imaginación creativa de artistas afrodescendientes de Colombia y Brasil. A través de una sinergia de medios artísticos como poesía, documental, memorias, performances coreográficos y musicales, el/la lector/a-espectador/a-oyente acompaña los movimientos de los cuerpos, los recuerdos, los sueños y las ilusiones de las personas mientras deambulan por territorios geográficos complejos donde se enfrentan a nuevas corrientes, cobran impulso, ocasionalmente son amenazadas con disolverse indefinidamente, sólo para resurgir, adquirir nuevos matices y florecer. La colección es producto de una investigación-acción participativa que explora y experimenta modos de co-creación de conocimientos, reflexionando sobre la (re-)existencia individual y colectiva por medio de prácticas artísticas en comunidades periferizadas.
Description
- Note
- Erschienen: Conceição da Feira, Bahia,Andarilha Edições, 2023 als ebook ISBN 978-65-84611-13-9 und als gedruckte Ausgabe, 2025 ISBN 978-65-84611-19-1
- Full text
-
tOdo
rEsiste
Rio
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CARTOGRAFIAS DE MEMORIAS AFROLATINAS
Valerie V. V. Gruber & Gilbert Shang Ndi (dirs.)
Direção geral & conceitual / dirección general & conceptual: Valerie V. V. Gruber
Direção da criação literária / dirección de la creación literaria: Gilbert Shang Ndi
Direção artística & orientação da produção audiovisual / dirección artística & orientación de
la producción audiovisual: Diego Araúja
Co-conceitualização & redação / co-conceptualización & redacción: Diana Mignano & Jonas
do Nascimento
Design & diagramação / diseño & diagramación: Daniel Restrepo Ospina
Ilustração & capa / ilustración & portada: Nativa iLustra
Revisão de textos / revisión de textos: Alex Simões & Rosmery A. H.
Edição & revisão / edición & revisión: Deisiane Barbosa
Todo rio resiste mar [livro eletrônico] :
cartografias de memórias afrolatinas /
organização Valerie V. V. Gruber, Gilbert
Shang Ndi ; [ilustração Nativa iLustra]. --
Conceição da Feira, BA : Andarilha Edições,
2023.
PDF
Vários colaboradores.
Bibliografia.
ISBN 978-65-84611-13-9
1. Artes 2. Criatividade (Literária, artística,
etc) 3. Estudos interculturais 4. Literatura -
Crítica e interpretação 5. Performance (Arte)
I. Gruber, Valerie V. V. II. Ndi, Gilbert Shang.
III. Nativa Ilustra.
Todo Rio Resiste Mar / Valerie V. V. Gruber & Gilbert Shang Ndi (dirs.)
1ª edição, dezembro de 2023.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Índices para catálogo sistemático:
1. Criatividade : Artes 701.15
Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129
3
23-183159
CDD-701.15
A pesquisa-ação participativa que deu origem ao conteúdo desta publicação, assim como
a impressão do livro, foram efetuadas no âmbito do Cluster de Excelência “Africa Multiple” da
Universidade de Bayreuth, financiado pela Fundação Alemã de Pesquisa (DFG – Deutsche
Forschungsgemeinschaft) sob a Estratégia de Excelência da Federação e dos Estados da
Alemanha – EXC 2052/1 – 390713894. A finalização deste livro foi realizada através do projeto
“DjumbaiALA: Diálogos de saberes africanos e afrodiaspóricos na era multimídia”, financiado
pelo Ministério Federal de Educação e Pesquisa da Alemanha (BMBF – Bundesministerium für
Bildung und Forschung) – 01DN22006. As opiniões e conceitos contidos nos textos e materiais
audiovisuais são de responsabilidade exclusiva dos/das autores/as.
/
La investigación-acción participativa que dio origen al contenido de esta publicación, así como la
impresión del libro, se llevaron a cabo en el marco del Clúster de Excelencia “Africa Multiple” de la
Universidad de Bayreuth, financiado por la Fundación Alemana de Investigación (DFG – Deutsche
Forschungsgemeinschaft) bajo la Estrategia de Excelencia de la Federación y los Estados de
Alemania – EXC 2052/1 – 390713894. La finalización de este libro se realizó a través del proyecto
“DjumbaiALA: Diálogos de saberes africanos y afrodiaspóricos en la era multimedia”, financiado
por el Ministerio Federal de Educación e Investigación de Alemania (BMBF – Bundesministerium
für Bildung und Forschung) – 01DN22006. Las opiniones y hechos consignados en los textos y
materiales audiovisuales son de exclusiva responsabilidad de sus autores/as.
Prefacio / Prefácio – Paula Moreno.
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aRchipiélago / arquiPélago
Embarque – Valerie V. V. Gruber, Gilbert Shang Ndi.
El Encuentro de las Tierras / O Encontro das Terras – Diego Araúja,
Matchume Zango, Lobadys Pérez.
Olvido / Esquecimento – Rigoberto Banguero Velasco.
100 Títulos – Diego Araúja.
Malunga – Un Replantear del Viaje / Malunga – Um Repensar da
Viagem – Lobadys Pérez, Matchume Zango, Candilé, REPROTAI.
Re-mezcla tu destrozado corazón / Re-componha seu coração partido.
– Wilfran Ospino.
El rescate interior / O resgate interior – Melissa Salgado.
En Una Sola Piel / Na Mesma Pele – Fernando Vargas Jr, Lorena Sou-
sa, Vin& Do Beat, Melissa Salgado.
Esta sou eu… / Esta soy yo… – Lorena Sousa.
Hacienda San Juan / Fazenda São João – Regiane Marques Lindner.
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mangLar / manguEzal
Palafitos / palafitaS
Manantial / Manancial
Soy Yo / Sou Eu – Felix Salgado, Jaime Gómez, Tacy Campos,
Thamy Nascimento.
Identidades – Jaime Gómez.
Já sei quem sou / Ya sé quién soy – Jamira Alves Muniz.
No te engañes, hijo / Se passa não, fi – Man0 Xandã0.
Ve en búsqueda, nunca estarás solo / Vá em busca, você
nunca estará sozinho – Man0 Xandã0.
Queremos Poder – Tatiane dos Anjos Mattos.
Hilando raíces de un legado / Fiando raízes de um legado – Carolina
Beleño Garcia, Man0 Xandã0, Gabriel Dias, Natalia Carmona Morales.
Las alas del resurgir / As asas do ressurgimento –
Natalia Carmona Morales.
El sonido del silencio / O som do silêncio – Fernando Vargas Jr.
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selva / Mata
cuEva / cavErna
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río de siete colores / rio de sete cores
Ribera / Ribeira
Memorias de una generación con olor a café / Memórias de uma
geração com cheiro de café – Carolina Beleño Garcia, Matchume Zango.
Afrolina: en búsqueda de una memoria de identidad y de superación / Afrolina: em
busca de uma memória de identidade e aprimoramento – Carolina Beleño Garcia.
Yo / Eu – Thamy Nascimento.
Reminiscencia / Reminiscência – Carolina Beleño Garcia.
Drogas y armas / Drogas e armas – Vin& Do Beat.
Impotencia / Impotência – Joan Sebastian.
Mi Favela no es siniestra / Minha Favela não é sinistra – Tacy Campos.
Mafone – Oríkì da Viagem / Mafone – Oríkì del Viaje – Diego Araúja,
Jaime Gómez, Matchume Zango, Candilé, REPROTAI.
Eternizar momentos – Ana Clara Magalhães.
La vida es una riqueza / A vida é uma riqueza – Man0 Xandã0, Vin& Do
Beat.
La vida como una obra de arte / A vida como obra de arte – Arlenis
Alvarez Pérez, Tatiane dos Anjos Mattos, Uadson Santana, Wilfran Ospino.
Más allá de los límites: la historia inspiradora de un líder social / Além dos
limites: a história inspiradora de um líder social – Miguel Salgado Padilla.
¡Saca el artista que llevas dentro! / Revele o artista que há em você! –
Arlenis Alvarez Pérez.
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olEada / enxuRrada
rEmolino / Redemoinho
Desembocadura / Foz
Estamos Juntxs – Felix Salgado, Man0 Xandã0, Vin& Do Beat.
Mi secreto / Meu Segredo – Man0 Xandã0, Vin& Do Beat.
Seguiremos – Man0 Xandã0.
MemoriAmefricana – Cartagena de Indias / Salvador da Bahia –
Documental / Documentário – Gabriel Dias.
Vueltas / Voltas – Felix Salgado.
Linda Realidade – Carlos Henrique Anjos da Silva.
Agua Dulce / Água Doce – Victoria “La Gallega” Castillo.
Desahogo: una mirada hacia mi realidad / Alívio: um olhar
para minha realidade – Melissa Salgado.
La simplicidad del existir / A simplicidade da existência –
Natalia Carmona Morales.
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prEfacio (español)
Presidenta de la Corporación Manos Visibles / Exministra de Cultura
de Colombia (2007-2010)
Muchas de las memorias de la diáspora africana no se hallan
en los archivos, sino en el fondo del mar del océano Atlántico,
cruzado desde el continente africano hasta las Américas. En
esta travesía de más de 10 mil kilómetros, ciudades como
Cartagena y Salvador de Bahía se entrelazan, simbolizando
la experiencia de ser ciudadano afrodiaspórico en el mundo.
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Paula Moreno
Se tejen matices de poder simbólico que enfrentan exclusiones cotidianas, desafiando las
independencias y la anhelada libertad día tras día. Estas memorias afrolatinas, provenientes
de Colombia y Brasil, son un viaje de norte a sur y de sur a norte, de costa a costa. Un viaje
compartido por múltiples tripulantes que, en cada etapa, comparten experiencias demostrando
que, más allá del idioma, estamos en el mismo barco. Son cuarenta bitácoras, páginas de
diarios de un viaje transatlántico que no ha cesado, pues aún buscamos nuestro lugar.
Melissa Salgado, desde Cartagena, nos dice: “Somos vulnerables cuando no podemos
dimensionar las cosas”, y tiene razón. La falta de memoria colectiva nos priva de potencia
mental, espiritual y material, perdiendo el poder de esa doble ciudadanía, no solo de un país,
sino de pertenecer a la diáspora africana. Estas diásporas se convierten en metáforas, como
señalan Glissant y Chamoiseau: África se encuentra con África, esa África la gente y esa África
el lugar, que cuando se ven, se reconocen incluso en otro continente. Esta experiencia abarca
a más de 1.5 billones de personas en el mundo, con más de 150 millones en América Latina,
principalmente en Brasil y Colombia, los dos países con la mayor población afrodescendiente
fuera del continente, junto a Estados Unidos. En este encuentro, solo podemos hallar
similitudes, no solo en la potencia creativa, sino también en los desafíos que surgen al seguir
siendo extranjeros y afirmar “somos” en un contexto marcado aún por estereotipos, con un
reconocimiento retórico más que efectivo. Desde Cartagena de Indias, Natalia Carmona
plantea una pregunta que refleja esta dicotomía: “¿Existimos en realidad o es un invento?” Ella
misma responde en un poema: “Tenemos una conexión ancestral, inquebrantable y, aunque
no lo veo, siento su existir.”
Este sentimiento de euforia y celebración, pero también de frustración y rabia, se transmite en los
relatos de estas memorias diaspóricas desde la experiencia afrolatina, donde lo transatlántico
no es solo cruzar un océano, sino reconocer sus costas, sus márgenes que constituyen una
realidad supranacional que une movimientos, sonidos, imágenes y palabras. Salvador de Bahía
y Cartagena, dos ciudades prima-hermanas como decimos en Colombia, son la evolución y
recreación de esa que al encontrarse, sacan los tesoros que se quedaron
en el fondo del océano. Entender que somos océano, como expresa Jonas
do Nascimento, implica “una resistencia… la importancia del Atlántico
como un océano que conecta culturas y memorias.” La energía de esas
conexiones la describe Regiane Marques cuando habla de la energía
creativa que trajo otros caminos, donde el dolor y la supervivencia se
convirtieron en el camino para avanzar, la fuerza que hizo que todo no se
quedara en el fondo del océano, sino que flotara y llegara a estas costas.
Como muchos lo mencionan, este viaje es un proceso de reconocimiento,
sanación y agencia. Agua dulce que vuelve al mar, como dice Victoria
Castillo, es esa imaginación poética donde el regreso al mar simboliza un
ciclo infinito de renovación y transformación, con el poder del agua como
un elemento que une todas las cosas en la naturaleza.
Finalmente, estos relatos evidencian el poder del arte, como expresa
Diana Mignano: “El arte y sus capacidades transformadoras desempeñan
un papel central en la búsqueda de nuevas formas de vida y sociedades
más equitativas”, desde una perspectiva transmedia donde los textos
se convierten en imágenes, sonidos y diferentes formas de narrativas
expansivas. Ana Clara Magalhães destaca cómo se eternizan los
momentos, se registran y se eternizan las conexiones para generar poder,
como enfatiza Tatiane dos Anjos Mattos: “hasta que desaparezcan los
márgenes”. Los márgenes, los límites, como menciona Miguel Salgado
con el título del fragmento de sus memorias: “Más allá de los límites”.
Este viaje no fue ni ha sido pacífico; está marcado por la violencia,
que sigue siendo un elemento común de las geografías diaspóricas
marcadas por desigualdades, empobrecimiento, despojo, humillaciones,
marginalización y contradicciones en el ejercicio del poder. Todo eso que
da vitalidad y frustra en la cotidianidad en Salvador o en Cartagena, desde
las favelas o lo que denominan en Cartagena como barrios populares.
Como nos recuerda Man0 Xandã0, ser ciudadanos diaspóricos es un
camino y universo de posibilidades, que este texto y todos los materiales
audiovisuales nos invitan a explorar para generar una fuerza de
transformación y esperanza en el mundo.
preFácio (português)
Presidente da Corporação Manos Visibles / Ex-Ministra da Cultura da
Colômbia (2007-2010)
Muitas das memórias da diáspora africana não se encontram
em arquivos, mas sim no fundo do Oceano Atlântico, na
travessia do continente africano até às Américas. Neste
percurso de mais de 10 mil quilômetros, cidades como
Cartagena e Salvador da Bahia se entrelaçam, simbolizando a
experiência de ser cidadão afrodiaspórico no mundo.
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Paula Moreno
Formam matizes de poder simbólico que enfrentam exclusões cotidianas, desafiando dia após
dia a independência e a liberdade almejada. Estas memórias afro-latinas, da Colômbia e do
Brasil, são uma viagem de norte a sul e de sul a norte, de costa a costa. Uma viagem partilhada
por vários tripulantes que, em cada etapa, partilham experiências mostrando que, para além
da língua, estamos no mesmo barco. São quarenta diários, páginas de diário de uma viagem
transatlântica que não parou, pois ainda procuramos o nosso lugar.
Melissa Salgado, de Cartagena, nos diz: “Somos vulneráveis quando não podemos medir as
coisas”, e ela tem razão. A falta de memória coletiva priva-nos do poder mental, espiritual
e material, quando se perde o poder dessa dupla cidadania, não só de um país, mas do
pertencimento à diáspora africana. Estas diásporas tornam-se metáforas, como apontam
Glissant e Chamoiseau: África encontra África, África que é o povo, África que é o lugar, que
quando vistos são reconhecidos até em outro continente. Esta experiência abrange mais de 1,5
bilhão de pessoas no mundo, sendo mais de 150 milhões na América Latina, principalmente no
Brasil e na Colômbia, os dois países com maior população afrodescendente fora do continente,
junto com os Estados Unidos. Neste encontro só podemos identificar semelhanças, não só no
poder criativo, mas também nos desafios que surgem de permanecermos estrangeiros e de
afirmarmos “somos” num contexto ainda marcado por estereótipos, com um reconhecimento
retórico mais do que eficaz. Desde Cartagena, Natalia Carmona coloca uma questão que
reflete esta dicotomia: “Existimos realmente ou somos uma invenção?” Ela mesma responde
em um poema: “Temos uma ligação ancestral, inquebrantável e, embora não a veja, sinto sua
existência”.
Este sentimento de euforia e celebração, mas também de frustração e raiva, é transmitido nas
histórias destas memórias diaspóricas da experiência afro-latina, onde transatlântico não é
apenas atravessar um oceano, mas reconhecer as suas costas, as suas margens que constituem
uma realidade supranacional, que une movimentos, sons, imagens e palavras. Salvador da
Bahia e Cartagena, duas cidades-irmãs, como dizemos na Colômbia, são
a evolução e recriação daquela que ao se encontrarem trazem à tona os
tesouros que ficaram no fundo do oceano. Compreender que somos o
oceano, como expressa Jonas do Nascimento, implica “uma resistência...
à importância do Atlântico como oceano que liga culturas e memórias”.
A energia dessas conexões é descrita por Regiane Marques, quando
fala sobre a energia criativa que trouxe outros caminhos, onde a dor e a
sobrevivência se tornaram o caminho para seguir em frente, a força que
fez com que tudo não ficasse no fundo do oceano, mas que flutuasse e
alcançasse essas margens. Como muitos mencionam, esta jornada é um
processo de reconhecimento, cura e agência. A água doce que retorna
ao mar, como diz Victoria Castillo, é aquela imaginação poética onde o
retorno ao mar simboliza um ciclo infinito de renovação e transformação,
com o poder da água como elemento que une todas as coisas da natureza.
Por fim, estas histórias demonstram o poder da arte, como expressa Diana
Mignano: “A arte e as suas capacidades transformadoras desempenham
um papel central na procura de novos modos de vida e de sociedades
mais equitativas”, numa perspectiva transmidiática onde os textos
se transformam em imagens, sons e diferentes formas de narrativas
expansivas. Ana Clara Magalhães destaca como os momentos são
eternizados, como as conexões são registradas e eternizadas para gerar
energia, tal como enfatiza Tatiane dos Anjos Mattos: “até que as margens
desapareçam”. As margens, os limites, como refere Miguel Salgado
com o título do fragmento das suas memórias: “Além dos limites”. Esta
viagem não foi e não tem sido pacífica. É marcada pela violência, que
continua a ser um elemento comum das geografias diaspóricas marcadas
por desigualdades, empobrecimento, desapropriação, humilhações,
marginalização e contradições no exercício do poder. Tudo isso dá
vitalidade e frustração ao dia a dia de Salvador ou Cartagena, nas favelas
ou no que chamam de bairros populares de Cartagena.
Como nos lembra Man0 Xandã0, ser cidadão diaspórico é um caminho
e um universo de possibilidades que este texto e todos os materiais
audiovisuais nos convidam a explorar para gerar uma força de
transformação e esperança no mundo.
embaRque (español)
valerie v.v. gruber, gilbert shang ndi
Los invitamos a embarcar en un viaje poético-performativo por corrientes afrolatinas, guiado
por artistas jóvenes de Colombia y Brasil. Este libro multimedia surge de un proyecto de
intercambio que reúne a miembros y líderes afrodescendientes de la Corporación Cultural
Candilé de Cartagena de Indias y la red REPROTAI (Rede de Protagonistas em Ação
de Itapagipe) de Salvador de Bahía a través de un proceso de arte-educación presencial y
virtual realizado a lo largo de cuatro años. El intercambio cultural se inspira en el método de
Investigación-Acción Participativa propuesto por el sociólogo colombiano Orlando Fals Borda,
diseñado para contribuir a la (re-)construcción de conocimientos marginados, silenciados e
invisibilizados por los discursos predominantes en el campo académico, artístico, político y la
sociedad civil. Esta iniciativa establece un diálogo transdisciplinario entre saberes, memorias y
prácticas creativas que permite vislumbrar múltiples perspectivas sobre los espacios sociales
y morales en la diáspora africana, más específicamente en dos antiguos puertos de la trata
transatlántica de africanos esclavizados. Ambas ciudades son – más allá de lugares traumáticos
– espacios prolíficos de resistencia, reinvención, superación y transformación.
En este contexto, los materiales reunidos en el libro abren horizontes a visiones, imaginarios y
sueños de una vida plena y digna en comunidades afrodiaspóricas, mientras que concientizan
sobre los desafíos estructurales como la discriminación, la desigualdad, el racismo y el
sexismo. Las narrativas, coreografías y composiciones surgen de múltiples posicionalidades,
subjetividades e identidades que abrazan diferencias de género, clase social, identificación
étnico-racial, sexualidad, religiosidad, edad, lugar de residencia, procedencia, cultura y nivel
educativo. Esta diversidad se refleja tanto en los grupos de los participantes jóvenes, como en
el equipo directivo que ha orientado la creación artística por medio de un proceso de mentoría
en diferentes áreas: Valerie Gruber (Alemania) desde la geografía social y la comunicación
intercultural, Gilbert Shang Ndi (Camerún) desde la literatura comparada y la escritura creativa,
Diego Araúja (Brasil) desde el arte expandido y el teatro, Lobadys Pérez (Colombia) desde
la danza contemporánea y los estudios culturales, Jaime Gómez (Colombia) desde la danza
folclórica y el performance, y Matchume Zango (Mozambique) desde la “world music” y la
composición; además del acompañamiento constante de los líderes comunitarios, en particular
el director de Candilé, Miguel Salgado Padilla (Colombia), y los coordinadores de REPROTAI,
Jamira y Tiago Alves Muniz (Brasil). Todo el equipo está comprometido con la función social del
arte, estimulando procesos de concientización, empoderamiento y transformación comunitaria
a través de la música, la danza, la poesía y otras formas de expresión creativa.
Este programa de intercambio forma parte de dos proyectos de investigación interrelacionados
del Clúster de Excelencia “Africa Multiple” de la Universidad de Bayreuth (Alemania), centrados
en las prácticas espaciales y memoriales en las ciudades de Salvador de Bahía y Cartagena
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de Indias, declaradas Patrimonio de la Humanidad por la UNESCO. Aquellos proyectos son:
“Moral Geographies of Re-Existence” (de Eberhard Rothfuß, Livio Sansone y Valerie Gruber) y
“Black Atlantic Revisited” (de Ute Fendler, Gilbert Shang Ndi y Thierry Boudjekeu Kamgang).
El libro multimedia se pudo realizar gracias al apoyo del Ministerio Federal de Educación e
Investigación de Alemania (BMBF) al proyecto “DjumbaiALA: Diálogos de saberes africanos
y afrodiaspóricos en la era multimedia” (de Valerie Gruber, Gilbert Shang Ndi, Diana Mignano,
Jonas do Nascimento, Daniel Restrepo Ospina y Cláudio Manoel Duarte de Souza), que tiene
el propósito de fortalecer la comunicación transdisciplinaria entre académicos, artistas y la
sociedad civil de América Latina, África y Europa. Más específicamente, el intercambio cuyos
resultados se presentan en este libro, se empezó a tejer a partir de la investigación doctoral
de Valerie Gruber que, después de escuchar a los líderes y miembros de muchas comunidades
periferizadas durante varios años, empezó a construir puentes entre mundos que han sido
separados de forma violenta desde la colonización y el imperialismo euro-americano. Esta
mediación dio inicio a un proceso co-creativo que dejó un impacto social que trasciende la
ciencia, beneficiando a diferentes agentes de cambio, sus comunidades e iniciativas.
A diferencia de la práctica convencional en la que los/las investigadores/as utilizan a los
miembros de la comunidad investigada como nada más que informantes, este intercambio
favorece una colaboración dinámica que se basa en la coproducción de conocimientos, la
reciprocidad, la coautoría, los beneficios colectivos y los aprendizajes mutuos. Todos/as los/
las autores/as del libro, no importa qué nivel de formación académica tengan, ayudaron a
construir el proyecto desde cero, produciendo arte y, al mismo tiempo, diferentes tipos de
saberes.
Para recoger estos saberes, la autoescritura creativa sirvió como recurso importante para la
representación y la transformación individual y colectiva. Este componente ha permitido a los
participantes descubrir sus talentos poéticos y narrativos, trazar sus vidas a lo largo de una
curva transformadora, dar sentido a su existencia e imaginar futuros inclusivos en un contexto
de persistente invisibilización de las personas afrodescendientes y sus culturas, memorias
e historias. La mayoría de las veces, las realidades de las comunidades afrodescendientes e
indígenas han sido abordadas y representadas por otros, distorsionando así sus marcos de
creación de significados, sus visiones del mundo y sus identidades. Por lo tanto, terminan
adaptándose a estereotipos preestablecidos y arraigados en sus sociedades. En cambio, la
poesía, la autoescritura y el performance ofrecen la posibilidad de que estos jóvenes reivindiquen
su capacidad de determinar su futuro y superar los traumas intergeneracionales. La escritura
en combinación con las otras formas de representación creativa contribuyen a lo que el escritor,
ensayista y teórico keniano Ngugi wa Thiong’o denomina “desplazar el centro”. Ningún espacio
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es, en su esencia, periférico, ya que de las llamadas periferias surgen epistemologías, formas de
sentir y pensar que desafían las hegemonías establecidas y permiten la coexistencia humana
más allá de la colonialidad de las relaciones humanas que categoriza a los espacios en centros
y periferias. Más aún, la capacidad de las comunidades llamadas periféricas para compartir
conocimientos y estrategias de superación puede ser mutuamente potenciadora. Durante
este intercambio, los lugares marginados de los que provienen los participantes y tutores
no se convierten en objeto de vergüenza, sino más bien en trampolines desde los que su
acción y activismo pretenden contribuir a un proceso de transformación, reposicionamiento y
reconstrucción basado en concepciones alternativas de la noción del desarrollo.
Debido a la pandemia del Covid-19, el intercambio se realizó de forma virtual durante más de
dos años, antes de que los grupos pudieran encontrarse en Colombia y Brasil en 2022. A lo largo
de este proceso, nutrido por talleres de escritura creativa, producción videográfica, sonorización,
mapeos comunitarios, laboratorios de creación colectiva y arte-educación, nacieron las 40
piezas audiovisuales (13 vídeos y 27 audios) que invitan al/la lector/a-espectador/a-oyente
a navegar por variados territorios sensoriales. El abordaje multimedia crea, en términos de
Boaventura de Sousa Santos, una ecología de saberes que permite incluir la dimensión del
cuerpo en el libro. Se vislumbran cuerpos-territorios, cuerpos-archivos, cuerpos-visiones cuyos
movimientos escapan la narrativa única colonial.
Los movimientos corporales son formas de textualidad complejas, lenguajes que ni siempre
son descifrables. En algunos espacios hegemónicos, los cuerpos de los afrodescendientes son
caricaturizados y vaciados de sus energías revolucionarias y transformadoras. Sin embargo, en
este libro nos llevan a reflexionar sobre las trayectorias de estas comunidades y su contribución
a la sociedad, la economía, la política, la educación, la cultura y el arte. Re-escriben historias
desde las periferias y esbozan visiones enraizadas en experiencias personales y comunitarias.
Son cuerpos que sentipiensan con la tierra, como señala el antropólogo colombiano Arturo
Escobar, planteando la ética de una vivencia colectiva digna. Estos cuerpos son lugares de
interrogación, de experimentación, pero sobre todo de relacionamiento y de corazonamiento.
Conectar el corazón y la razón es fundamental para recuperar el derecho a la vida digna ante
la colonialidad del poder, del saber y del ser, como nos recuerda el músico, poeta y antropólogo
ecuatoriano Patricio Guerrero Arias.
Estos cuerpos históricamente desarraigados se (re)encontraron gracias a los viajes a ambas
ciudades. La movilidad es un aspecto importante del desarrollo humano y la autotransformación.
Cuando nos desplazamos voluntaria y conscientemente, nos reposicionamos, ampliamos el
horizonte de nuestra humanidad y nuestras visiones. La movilidad también nos ayuda a poner
en cuestión nuestras opiniones más arraigadas sobre nosotros mismos y los demás, superando
barreras y límites para desplegar nuestra capacidad de innovación y nuestro potencial de
cambio. Sin embargo, la geopolítica mundial y la dinámica neoliberal predeterminan quién
tiene el derecho de desplazarse y a quién se le exige que se quede quieto, complicándole o
negándole el acceso a la visa, por ejemplo. Por esta colonialidad de la movilidad, a las personas
de comunidades desfavorecidas se les impide, sutil o abiertamente, experimentar las ventajas
de la movilidad transnacional o transcontinental debido a sus rasgos económicos, lingüísticos
o raciales. Por lo tanto, los antiguos sujetos colonizados están obligados a hacer esfuerzos
extraordinarios para conseguir lo que para otras personas serían logros ordinarios. Esto subraya
la importancia de los viajes de intercambio realizados por los miembros de REPROTAI y
Candilé para Cartagena de Indias/Salvador de Bahía y la mutua conciencia transcultural y
epistemológica a la que dieron lugar. Cada un/a de los/las participantes y tutores ha crecido
como ser humano, pero también en su campo de especialización artística/académica/social
para compartir sus experiencias con los demás en sus diferentes contextos.
La importancia de la movilidad se refleja en el diseño del libro, inspirado en un viaje por el río
de la vida diaspórica. Tiene 13 paradas – capítulos ilustrados por la artista colombiana Nativa
iLustra que está basada en Salvador de Bahía y traduce memorias y sueños afrolatinos en
colores y formas. Los nombres de los capítulos hacen referencia a lugares intersticiales que
desdibujan barreras y fronteras impuestas, abriendo oportunidades espacio-temporales para
renacer y recrear proyectos de vida más allá del trauma. Es una cartografía de la sanación y la
transformación socio-cultural, que inicia y desemboca en el mar, atraviesa territorios tropicales
con sus riquezas y peligros, mientras que pasa por corrientes, remolinos y oleadas. Se
mezclan aguas dulces y saladas, traumas y anhelos, necesidades y satisfacciones, limitaciones
y horizontes, amalgamados por lenguajes artístico-creativos. El río de la vida diaspórica es
un intersticio vulnerable y fructífero, corriente y contracorriente, que deja fluir las cosas para
poder sobrevivir y al mismo tiempo tiene agencia para resistir, escapando cualquier categoría
simplificadora y lógica de pureza. Es un río que grita libertad, que reluce por sus infinitas
tonalidades, vueltas e insurgencias – un río que resiste mar.
Integrantes del intercambio durante el encuentro en Cartagena de Indias. Foto: Davis Vega.
embaRque (português)
valerie v.v. gruber, gilbert shang ndi
Convidamos você a embarcar em uma viagem poético-performativa pelas correntes afro-
latinas, guiada por jovens artistas da Colômbia e do Brasil. Este livro multimídia é o resultado
de um projeto de intercâmbio que reúne membros e líderes afrodescendentes da Associação
Cultural Candilé, de Cartagena (Colômbia), e da Rede de Protagonistas em Ação de Itapagipe
(REPROTAI), de Salvador (Brasil), por meio de um processo de arte-educação presencial e
virtual realizado durante quatro anos. O intercâmbio cultural é inspirado no método de Pesquisa
- Ação Participativa proposto pelo sociólogo colombiano Orlando Fals Borda, concebido para
contribuir com a (re)construção de conhecimentos marginalizados, silenciados e invisibilizados
pelos discursos predominantes nos campos acadêmico, artístico, político e da sociedade civil.
Essa iniciativa estabelece um diálogo transdisciplinar entre saberes, memórias e práticas
criativas que nos permite vislumbrar múltiplas perspectivas sobre espaços sociais e morais
na diáspora africana, mais especificamente em dois antigos portos do comércio transatlântico
de escravizados africanos. Ambas as cidades são - além de lugares traumáticos - espaços
prolíficos de resistência, reinvenção, superação e transformação.
Nesse contexto, os materiais reunidos no livro abrem horizontes para visões, imaginários e
sonhos de uma vida plena e digna em comunidades afro-diaspóricas, ao mesmo tempo em
que aumentam a conscientização sobre desafios estruturais como discriminação, desigualdade,
racismo e sexismo. As narrativas, coreografias e composições emergem de múltiplas posições,
subjetividades e identidades que abrangem diferenças de gênero, classe, identificação étnico-
racial, sexualidade, religiosidade, idade, local de residência, formação, cultura e nível educacional.
Essa diversidade se reflete tanto nos grupos de jovens participantes quanto na equipe de
gerenciamento que orientou a criação artística por meio de um processo de mentoria em
diferentes áreas: Valerie Gruber (Alemanha), de geografia social e comunicação intercultural;
Gilbert Shang Ndi (Camarões), de literatura comparada e redação criativa; Diego Araúja
(Brasil), de arte expandida e teatro; Lobadys Pérez (Colômbia), de dança contemporânea e
estudos culturais; Jaime Gómez (Colômbia), de dança folclórica e performance; e Matchume
Zango (Moçambique), de world music e composição; além do acompanhamento constante
de líderes comunitários, em especial o diretor do Candilé, Miguel Salgado Padilla (Colômbia),
e os coordenadores da REPROTAI, Jamira e Tiago Alves Muniz (Brasil). Toda a equipe está
comprometida com a função social da arte, ao estimular processos de conscientização,
capacitação e transformação da comunidade por meio da música, da dança, da poesia e de
outras formas de expressão criativa.
Esse programa de intercâmbio faz parte de dois projetos de pesquisa inter-relacionados do
Cluster de Excelência “Africa Multiple” da Universidade de Bayreuth (Alemanha), com foco
em práticas espaciais e memoriais nas cidades de Salvador da Bahia e Cartagena das Índias,
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Patrimônio Mundial da UNESCO. Esses projetos são: “Moral Geographies of Re-Existence”
(de Eberhard Rothfuß, Livio Sansone e Valerie Gruber) e “Black Atlantic Revisited” (de Ute
Fendler, Gilbert Shang Ndi e Thierry Boudjekeu Kamgang). O livro multimídia foi possível
graças ao apoio do Ministério Federal Alemão de Educação e Pesquisa (BMBF) para o
projeto “DjumbaiALA: Diálogos de saberes africanos e afrodiaspóricos na era multimídia” (de
Valerie Gruber, Gilbert Shang Ndi, Diana Mignano, Jonas do Nascimento, Daniel Restrepo
Ospina e Cláudio Manoel Duarte de Souza), que visa fortalecer a comunicação transdisciplinar
entre acadêmicos, artistas e a sociedade civil na América Latina, África e Europa. Mais
especificamente, o intercâmbio cujos resultados são apresentados neste livro começou a ser
tecido a partir da pesquisa de doutorado de Valerie Gruber que, depois de ouvir os líderes e
membros de muitas comunidades periféricas por vários anos, começou a construir pontes
entre mundos que foram violentamente separados desde a colonização e o imperialismo euro-
americano. Essa mediação deu início a um processo cocriativo que deixou um impacto social
que transcende a ciência, beneficiando diferentes agentes de mudança, suas comunidades e
iniciativas.
Diferentemente da prática convencional, em que os/as pesquisadores/as usam os membros da
comunidade de pesquisa como meros informantes, esse intercâmbio favorece uma colaboração
dinâmica baseada na coprodução de conhecimentos, reciprocidade, coautoria, benefícios
coletivos e aprendizado mútuo. Todos/as os/as autores/as do livro, independentemente do
nível de formação acadêmica que tenham, ajudaram a construir o projeto do zero, produzindo
arte e, ao mesmo tempo, diferentes tipos de conhecimento.
Para captar esses saberes, a autoescrita criativa serviu como um recurso importante para
a representação e transformação individual e coletiva. Esse componente permitiu que os
participantes descobrissem seus talentos poéticos e narrativos, traçassem suas vidas ao
longo de uma curva transformadora, dessem sentido à sua existência e imaginassem futuros
inclusivos em um contexto de persistente invisibilização do povo afrodescendente e de
suas culturas, memórias e histórias. Na maioria das vezes, as realidades das comunidades
afrodescendentes e indígenas têm sido abordadas e representadas por outros, distorcendo,
assim, suas estruturas de criação de sentido, visões de mundo e identidades. Portanto, elas
acabam se adaptando a estereótipos preestabelecidos, enraizados em suas sociedades. Em
contrapartida, a poesia, a escrita de si e a performance oferecem a esses jovens a possibilidade
de recuperar a capacidade de determinar seu futuro e superar traumas intergeracionais. A
escrita, combinada com outras formas de representação criativa, contribui para o que o escritor,
ensaísta e teórico queniano Ngugi wa Thiong’o chama de “deslocamento do centro”. Nenhum
espaço é, em sua essência, periférico, pois das chamadas periferias emergem epistemologias,
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formas de sentir e pensar que desafiam as hegemonias estabelecidas e permitem a coexistência
humana além da colonialidade das relações humanas que categoriza os espaços em centros
e periferias. Além disso, a capacidade das chamadas comunidades periféricas de compartilhar
conhecimento e estratégias de enfrentamento pode ser mutuamente fortalecedora. Durante
esse intercâmbio, os lugares marginalizados de onde vêm os participantes e mentores não
se tornam objetos de vergonha, mas sim trampolins a partir dos quais sua ação e ativismo
pretendem contribuir para um processo de transformação, reposicionamento e reconstrução
baseado em concepções alternativas da noção de desenvolvimento.
Devido à pandemia de Covid-19, o intercâmbio foi realizado virtualmente por mais de
dois anos, até que os grupos puderam se encontrar na Colômbia e no Brasil em 2022. Ao
longo desse processo, alimentado por oficinas de escrita criativa, produção de vídeo, som,
mapeamento comunitário, laboratórios de criação coletiva e arte-educação, nasceram as 40
peças audiovisuais (13 vídeos e 27 áudios), que convidam o/a leitor/a-espectador/a-ouvinte
a navegar por diversos territórios sensoriais. A abordagem multimídia cria, nos termos de
Boaventura de Sousa Santos, uma ecologia de saberes que permite que a dimensão do corpo
seja incluída no livro. Vislumbramos corpos-territórios, corpos-arquivos, corpos-visões cujos
movimentos escapam à narrativa colonial única.
Os movimentos corporais são formas complexas de textualidade, linguagens que nem sempre
são decifráveis. Em alguns espaços hegemônicos, os corpos de pessoas de ascendência
africana são caricaturados e esvaziados de suas energias revolucionárias e transformadoras.
No entanto, neste livro, somos levados a refletir sobre as trajetórias dessas comunidades e
sua contribuição para a sociedade, a economia, a política, a educação, a cultura e a arte. Eles
reescrevem histórias das periferias e esboçam visões enraizadas em experiências pessoais
e comunitárias. São corpos que sentipensam com a terra, como aponta o antropólogo
colombiano Arturo Escobar, propondo a ética de uma vivência coletiva digna. Esses corpos
são lugares de questionamento, de experimentação, mas, acima de tudo, de relacionamento
e de pensamento do coração. Conectar o coração e a razão é fundamental para recuperar o
direito a uma vida digna diante da colonialidade do poder, do saber e do ser, como nos lembra
o músico, poeta e antropólogo equatoriano Patricio Guerrero Arias.
Esses corpos historicamente desenraizados se (re)encontraram por meio de viagens às
duas cidades. A mobilidade é um aspecto importante do desenvolvimento humano e
da autotransformação. Quando nos movemos voluntária e conscientemente, nós nos
reposicionamos, ampliamos o horizonte de nossa humanidade e de nossas visões. A
mobilidade também nos ajuda a desafiar nossas visões mais arraigadas de nós mesmos e dos
outros, superando barreiras e limites para desenvolver nossa capacidade de inovação e nosso
potencial de mudança. No entanto, a geopolítica global e a dinâmica neoliberal predeterminam
quem tem o direito de se deslocar e quem é obrigado a ficar parado, complicando ou negando
o acesso a vistos, por exemplo. Devido a essa colonialidade da mobilidade, as pessoas de
comunidades desfavorecidas são sutil ou abertamente impedidas de vivenciar e aproveitar a
mobilidade transnacional ou transcontinental devido à sua situação econômica e características
linguísticas ou raciais. Os ex-sujeitos colonizados são, portanto, obrigados a fazer esforços
extraordinários para alcançar o que para outras pessoas seriam conquistas comuns. Isso
ressalta a importância das viagens de intercâmbio realizadas pelos membros da REPROTAI
e do Candilé a Cartagena das Índias/Salvador da Bahia e a conscientização intercultural e
epistemológica mútua que elas proporcionaram. Cada um/a dos/das participantes e tutores
cresceu como ser humano, mas também em seu campo de especialização artística/acadêmica/
social para compartilhar suas experiências com outras pessoas em seus diferentes contextos.
A importância da mobilidade se reflete no design do livro, inspirado em uma viagem pelo rio
da vida diaspórica. O livro tem 13 paradas - capítulos ilustrados pela artista colombiana Nativa
iLustra, que vive em Salvador, e traduz memórias e sonhos afro-latinos em cores e formas.
Os nomes dos capítulos se referem a lugares intersticiais que borram barreiras e fronteiras
impostas, abrindo oportunidades espaço-temporais para o renascimento e a recriação de
projetos de vida além do trauma. É uma cartografia de cura e transformação sociocultural,
que começa e termina no mar, atravessa territórios tropicais com suas riquezas e perigos,
passando por correntes, redemoinhos e ondas. Mistura águas doces e salgadas, traumas e
anseios, necessidades e satisfações, limitações e horizontes, amalgamados por linguagens
artístico-criativas. O rio da vida diaspórica é um interstício vulnerável e frutífero, corrente
e contracorrente, que deixa as coisas fluírem para sobreviver e, ao mesmo tempo, tem a
capacidade de resistir, escapando de qualquer categoria simplificadora e lógica de pureza. É
um rio que clama por liberdade, que brilha em suas infinitas tonalidades, insurgências, voltas
e reviravoltas – um rio que resiste mar.
integrantes do intercâmbio durante o encontro em salvador da bahia. foto: gabriel dias.
maR
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El encuentro de las tierras / o Encontro das terras
Aqui, o Atlântico é um oceano de histórias que liga a África, a América Latina e o Caribe.
Ao longo do tempo, serviu de rota de comércio de humanos escravizados para as Américas
e, posteriormente, para a migração forçada de africanos para diferentes partes do mundo.
Essas conexões transatlânticas deixaram marcas profundas nas culturas e memórias dos
povos afro-latino-americanos.
Nesse contexto, os artistas Diego Araúja, Matchume Zango e Lobadys Pérez utilizam
diversos elementos artísticos como música, som, coreografia, documentário e poesia para
produzir uma obra audiovisual que é um verdadeiro manifesto de resistência a partir do
resgate desses vestígios de memórias. Através da arte, esses artistas conseguem reativar
e ressignificar histórias até então silenciadas. Sendo assim, o Atlântico Negro ergue-se
como um oceano que conecta memórias e subjetividades culturais que se manifestam
na vernacularidade da população afro-latino-americana, tornando-se central para a
compreensão da mensagem da obra.
Com isso, “El Encuentro de las Tierras” é, de fato, uma obra de arte audiovisual significativa
que destaca a importância da arte como um meio poderoso de descolonização da história
e de resistência, sendo capaz, portanto, de revelar as relações de poder que existem nessas
conexões transatlânticas, e de questionar a forma como a história foi contada, finalmente
abrindo espaços para vozes que foram por muito tempo marginalizadas e/ou obliteradas.
diego araúja, matchume zango, lobadys pérez
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Texto: Jonas do Nascimento
“El Encuentro de las Tierras” é um exemplo de como a arte
pode ser um instrumento poderoso para a descolonização
da história e a resistência contra as opressões que foram
impostas aos povos colonizados ao longo dos séculos. É
uma obra que nos convida a refletir sobre a importância
do direito à memória e, através dela, à re-existência. Além
disso, a obra reconhece a importância do Atlântico como
um oceano que conecta culturas e memórias, enfatizando
a corporeidade da população afro-latino-americana como
um local de manifestação dessas conexões.
Video: “El Encuentro de las Tierras”
Olvido / Esquecimento
Cuando el olvido
invade tu corazon,
es una manera de morir,
sin ver el sol y las estrellas;
perdido en el silencio de tu ser
y en los intersticios de la vida.
Me pregunto ¿Para qué existo?
Si estás lejos de aquí.
Imaginarios, mitos y utopías.
Esencias, sustancialidad y alquimia.
Vuelo de trinos y cantos de mariposa.
Solo emoción en tus mejillas.
rigoberto banguero velasco
Foto: GRIOTS Comunicaciones & Producciones
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100 títuLos
Como poeta, vivo de assalto,
cada palavra é roubo planejado.
Nos dicionários, tiro as letras,
de proprietários pego tretas
num solário doente de bestas
– um calvário onde mudo metas
do asfalto oco dos ainda vivos
autores, velhos ladrões de gado.
No caderno branco, me atrevo,
escrevo treva morta em trevo;
reescritas da sorte sem preço
– obsceno poema de restos.
Morro mais na graça de dez versos
vendo-se de graça no excesso...
e retornar sem ter erro se acirra.
É como ler Drummond, cerro e ira,
que na impureza do branco lia;
sempre havendo mil Itabiras
em mil tons de trens de doido; pira
que na esquina me incendiaria
– vivo-morto me dando a miragens.
Entre benévolas paisagens
esqueço de memórias selvagens...
das margens, linhas do caderno, Di-
ego Atlântico brota do Haiti.
... e, na falta do lápis, ouço os ecos.
Letras molhadas deslizam versos
soprados de encontro ao vento,
encharcados no contrário tempo.
diego araúja
Foto: Ana Clara Magalhães
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BaRco
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Malunga – un Replantear del viaje / Malunga – um Repensar da Viagem
Texto: Diana Mignano
Es imposible hablar del relato único sin hablar de poder.
Existe una palabra, una palabra igbo, que me viene siempre a la cabeza
cuando pienso en las estructuras de poder del mundo: nkali.
Es un nombre que podría traducirse por « ser más grande que otro ».
Igual que en el mundo político y económico,
las historias también se definen por el principio del nkali:
la manera en que se cuentan, quién las cuenta, cuándo las cuenta,
cuántas se cuentan… todo ello en realidad depende del poder.
Poder es la capacidad no solo de contar la historia de otra persona,
sino de convertirla en la historia definitiva de dicha persona.1
lobadys pérez, matchume zango, candilé, reprotai
Reescribir sus propias historias coloniales y poscoloniales,
repensarlas y posicionarlas se ha convertido en uno de
los quehaceres centrales de las comunidades afro, tanto
en Colombia como en Brasil. No solo para deconstruir la
identidad y el lugar que les ha sido asignado a través de
la cuestionada “historia oficial”, sino como un proceso de
sanación, de reconocimiento y de agencia.
“Malunga – un replantear del viaje” surge precisamente a
través de estos procesos colectivos de múltiples reflexiones y
creaciones que cuestionan la historia, en este caso concreto,
la historia única que se ha institucionalizado sobre los viajes
transatlánticos que millones de seres humanos esclavizados
en territorios africanos fueron forzados a realizar hasta las
Américas. Malunga, como performance, pone en escena no
solo el movimiento de estos barcos y de sus pasajeros, sino
de las historias que durante los viajes se fueron entretejiendo
y de las conexiones humanas, que las personas aún en los
momentos históricos más crueles son capaces de concebir.
En Malunga, la danza, el canto y las imágenes que lo conforman
se convierten en las narraciones que desde siempre les han
sido negadas a los afrodescendientes: las que nacen desde
sus propias cosmovisiones, conocimientos y entendimientos
de su pasado y de su visión de futuro. En Malunga, son ellos
sus escritores, creadores y ejecutores.
1 Adichie, Chimamanda Ngozi. El peligro de la Historia ùnica. Publicaciones Semana / Proyecto
ARCADIA, 2019.
Video: “Malunga – Un replantear del viaje”
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Re-mezcla tu destrozado corazón / Re-componha seu coração partido
Hoy bajo la misma musa inspiracional
que alguna vez inspiró al Joe
para componer sus temas,
redacto este poema en medio de la madrugada.
No sin antes decir que
conservo la misma ilusión que Joe Quijano
de querer besarte y tenerte otra vez,
y que nuestro amor no quede
como aquella cena inconclusa de Andy Montañez.
No me queda más que perderme
en un abismo de tristeza y lágrimas,
aún se me sigue olvidando que no estás
y te busco a mi lado al despertar
como aquella canción de Marc Anthony.
Y desde el fondo de mi destrozado corazón
pido que escuches esta plegaria
que nace de mí como un regalo…
aquella canción tan recordada del Grupo Clase.
wilfran ospino
Foto: Ana Clara Magalhães
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El rescate interior / O resgate interior
Hoy solo quiero aprender a sanar,
bailar sin parar hasta mi cuerpo cansar,
será suficiente para dejar de pensar.
El tiempo irá revelando secretos,
no me extraña si viene con la razón,
endureciendo un poco mi corazón.
Dudas siempre habrán en mi cabeza,
y aunque estén algo resueltas,
las respuestas seguirán siendo traviesas.
Hacer el intento a veces no es suficiente,
y debo ser paciente para estar consciente
de que mis acciones sean coherentes.
Buscar el equilibrio es divertido,
hay cosas que nos hacen subir y bajar,
pero la balanza a su punto llegará.
Querer ser lo que quiero ser, exige pasión,
ser para lograr la satisfacción personal,
crecer y creer que lo puedo hacer.
melissa salgado
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Foto: Heder Novaes
aRchipiéLago /
arqUiPélago
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fernando vargas jr, lorena sousa, vin& do beat, melissa salgado
Texto: Diana Mignano
El arte y sus capacidades transformadoras desempeñan un
papel central en la búsqueda de formas de vida y sociedades
más equitativas, ya que nos permiten imaginar y (re)
crear otros mundos posibles, especialmente en contextos
caracterizados por profundas desigualdades sociales y
económicas. Un buen ejemplo de ello son las vidas retratadas
en el video-performance “En una sola piel”, en el que sus
cuatro protagonistas, dos mujeres y dos hombres nacidos
en Salvador de Bahía (Brasil) y Cartagena (Colombia), han
conseguido forjar sus vidas y transformar su entorno a través
de su quehacer artístico y cultural.
En Una Sola Piel / Na Mesma Pele
Las actividades artístico-culturales de los protagonistas de este video les han permitido abrir
espacios de reflexión, conexión y reconocimiento, no sólo con su propio presente sino también
con su misma historia y ancestros. De esta manera, han podido hacer suya, transformar y
seguir construyendo su memoria y la de su pueblo.
Así, “En una sola piel” presenta el arte, la creatividad y la resiliencia como herramientas para
el empoderamiento y la movilización de los habitantes de ciudades y lugares que han sido
marginados a lo largo de la historia. Pues es allí donde los sueños son el motor que sustituye
al abandono estatal, donde los anhelos se convierten en las oportunidades que les han sido
negadas y arrebatadas, y donde la familia y los amigos son la red de apoyo y bienestar que
impulsa sus acciones para construir una sociedad más justa e inclusiva.
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Video: “En una sola piel”
Esta soy yo... / Esta sou eu…
Ela prefere ouvir música e dançar,
conquista com o jeito de falar e de se vestir.
Nunca é muito extravagante,
nunca chama muita atenção,
preza pela simplicidade nas peças de roupa e aparência.
Consegue ficar linda assim.
Sua felicidade irá te contagiar.
Ela é cura para a depressão.
Por vezes tenho vontade de colocá-la em um pote,
tamanha a felicidade que essa garota exala.
Ela transmite sorriso pelo olhar.
Ela é de Libra e é impossível não se apaixonar.
Sabe o que quer da vida, quer ser grande,
uma grande bailarina, uma grande educadora,
uma grande profissional.
Ela sonha grande sempre.
Ela quer ser grande,
mas gosta de passar despercebida.
Ela é graciosa sem chamar muita atenção,
linda sem causar comentários.
Ela vem do nada e muda tudo!
lorena sousa
Foto: Heder Novaes.
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regiane marques lindner
Entra! Seja bem-vinda!
Aqui se encontra a casa de seus avós. Estamos no sertão da Bahia, em Nova Itarana, num
pequeno povoado da Fazenda São João. Seus avós já faleceram há algum tempo e esta casa
pertencia a eles, mas hoje vivem aqui sua tia Aliria e seu tio Zé, irmãos do seu pai. E agora esta
é a sua casa, pois seus pais se separaram quando você era bebê, e sua tia Aliria cuida de você
e de Bárbara, sua irmã mais velha.
No jardim, temos árvores grandes, como umbuzeiros, cajueiros e cajazeiras. Aqui perto da
porta da cozinha, sua tia Aliria tem uma pequena horta, mas às vezes é difícil cuidar das
plantas, pois a água é escassa e as galinhas criadas soltas no quintal procuram formas de
invadir esse cercado para se alimentarem dos legumes frescos. Claro, quem não gosta de
legumes frescos?
Logo ali, no meio da fazenda, tem um lago, cavado há muito tempo para captar água da chuva.
Essa água é muito importante para os animais que vivem aqui e também para vocês poderem
lavar as roupas, tomar banho e limpar a casa. Mas olha a cor dessa água! Não é muito límpida;
tem um tom mais esverdeado, por conta das plantas que vivem dentro e dos animais que
bebem e se banham no lago. “Vocês também bebem essa água?” A resposta é: “Não!”
Para beber, busca-se água em outro lago, no tanque do São João. Aparentemente a água
desse tanque é mais limpa e por isso toda a população da Fazenda São João vai lá para
abastecer seus tonéis, potes e filtros. Esse lugar é um importante ponto de encontro de muitas
pessoas, em especial mulheres, que vão buscar água geralmente no início ou no final do dia,
quando o sol não está quente.
Daqui de casa até o tanque tem uma distância média de talvez um quilômetro e você, sua
irmã e sua tia precisam ir até lá trazer água, dia sim, dia não, para abastecer a casa, com baldes
na cabeça e\ou garrafas. Embora aos sete anos de idade essa tarefa pareça difícil de realizar,
para você tudo parece uma grande diversão.
Mas vamos lá conhecer um pouco da casa?
Entrando aqui pela cozinha, à sua esquerda tem esse banco de madeira preta, onde você
sempre se senta com sua irmã para comer, conversar sobre assuntos aleatórios de crianças,
penteia os cabelos ou ajuda a sua tia a preparar os alimentos.
Vamos sentar aqui!
Agora, olhe ao seu lado direito. Tem uma bancada velha de madeira onde ficam os utensílios
de cozinha e as bacias para se lavar os pratos. À frente tem uma dispensa em que geralmente
Hacienda san Juan / Fazenda São João
se guarda comida, mas vocês guardam lenhas para cozinhar. Ao lado da dispensa, tem um
pequeno banheiro. E aqui, do seu lado direito, tem um fogão à lenha, feito de barro, e fora
tem um forno também à lenha, no qual sua avó adorava fazer bolos, segundo se conta por aí.
Certamente, aqui nesta casa são preparadas deliciosas comidas e sua tia Aliria torra o melhor
café. A parede e o teto da cozinha têm cor de queimado, por causa da fumaça e do calor
gerados pelo uso constante do fogão.
A lenha necessária para cozinhar os alimentos é trazida da floresta. As pessoas sempre dizem:
“Vamos no mato catar lenha!” Tem florestas mais próximas ou mais distantes da fazenda. As
lenhas mais finas são suficientes para o dia a dia, sendo recolhidas perto de casa. Já para a
preparação do feijão, é importante ter madeiras mais grossas que durem por mais tempo,
tendo-se de buscá-las nas florestas mais distantes.
Cada uma traz um feixe na cabeça, porque assim se tem lenha por mais tempo em casa. Sua
tia sempre diz: “Bora no mato catar lenha!” Sua tia Aliria, que ouve e fala muito pouco, tem o
coração enorme. Ela é um ser humano lindo e cheio de amor e carinho. Essa mulher muito
trabalhadora, que ama muito você e sua irmã, cuidando de vocês com muito carinho, não teve
filhos nem se casou. Às vezes fica um pouco nervosa com suas brincadeiras, mas todo tempo
está sorrindo. É sempre muito bom ouvi-la dizer: “Siapo…”, era sua tentativa de dizer diabo,
quando chamou vocês para as refeições, “... vem comer!”
Agora vamos para os outros cômodos desta casa que tem três quartos grandes, com uma
cama de cimento em cada um. No primeiro, dorme seu tio; no segundo, sua tia; e no terceiro,
você e sua irmã. Aqui à frente, tem uma grande sala de estar. Na sala principal tem apenas um
sofá velho e na sala de jantar uma mesa média e uma cristaleira com muitos objetos de vidro.
No canto embaixo da janela, tem uma mesinha com um ferro de passar roupas a carvão. Às
vezes, sua tia usa para passar as camisas do tio Zé. Olha aqui! Dessa janela, dá para ver esses
lindos pés de umbus que estão florescendo e logo teremos umbus deliciosos.
Mas vamos voltar para a cozinha?
Senta aqui no banco e vamos seguir na nossa conversa!
Até agora já falamos de muitas coisas, mas não mencionamos seus pais. Uma boa pergunta,
por sinal: cadê seus pais?
Sinceramente, não é possível dizer ao certo onde eles estão. A sua mãe, até onde se sabe, está
em Salvador trabalhando. Ela e seu pai se separaram quando você era muito pequena. Sua
mãe tem um outro filho, Bruno, do primeiro relacionamento. Como o pai de Bruno não se
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importa com o filho e, consequentemente, não ajuda a sua mãe com as despesas, ela precisa
trabalhar muito para conseguir pagar as contas.
Sua mãe conta que sempre precisou estar nas casas de pessoas com melhores condições
financeiras, trabalhando como empregada doméstica, pois lá, muitas vezes, vivia com a família
para quem trabalhava e, sendo mãe solteira e sem contar com pais vivos para ajudar, essa foi
a opção para sobreviver e enfrentar as dificuldades financeiras.
Apesar das dificuldades, sempre que possível, no aniversário de vocês, ela viaja até aqui e traz
roupas, sapatos e faz uma pequena festa para vocês. Não pode, no entanto, ficar por muito
tempo, pois precisa trabalhar. Segundo sua mãe, ela deixou vocês sob o cuidado do seu pai.
Já que eles tinham se separado, ela não tinha ao menos uma casa para viver e não era possível
levar três crianças para viverem com ela no seu local de trabalho. Sua mãe conta que sempre
voltava a Salvador com o coração partido e com muitas lágrimas nos olhos ao deixar vocês.
Você talvez não se lembre de vê-la partir, mas a sua chegada era sempre um momento de
muita felicidade. Lembro de ver você e sua irmã correndo pela estrada de acesso à casa do
seu tio Alfredo e gritando com muita alegria: “Minha mãe chegou! Minha mãe chegou!!!” Em
seguida, sempre vinha a mesma pergunta: “Quando é que a senhora vem buscar a gente?” E
sua mãe, com um olhar triste, dizia: “Ainda não consigo, pois é necessário guardar um pouco
de dinheiro, mas ,assim que possível, seu pai irá levar vocês para morar comigo”.
Mas onde anda seu pai?
Existem muitas histórias e suposições, mas nada muito concreto. Seu pai sempre disse que
viajava a trabalho. Ele trabalhava muito na roça, capinando o mato e fazendo plantações de
melancias e abóboras, como forma de gerar renda para comprar alimentação. Ele muitas vezes
dizia que iria viajar a Santo Antônio de Jesus para vender a colheita.
Seus tios sempre comentam: “ele tem muitas mulheres e vive para isso”. Todos comentam que
ele nunca foi um homem de uma mulher só. Quando as mulheres descobrem os jogos dele,
vão embora. Quem ficou por mais tempo com ele foi sua madrasta Mari, uma mulher muito
generosa e amorosa com as pessoas. Ela não teve filhos com o seu pai, pois, num relacionamento
anterior, depois de ter seu único filho, fez cirurgia para não ter mais filhos. Mesmo assim, ela
cuidou muito de vocês. Com muito amor e carinho, sempre ensinou, conversou com vocês
sobre a importância de estudar, ter uma profissão e não precisar financeiramente de homens.
Ana Mari foi professora do ensino fundamental em uma escola aqui na Fazenda São João,
onde vocês estudaram. Mari sempre foi uma professora muito dedicada e apaixonada pelo
que faz, mas ela também foi embora para Salvador, pois ela precisava estar mais com seu filho
e sua mãe. Provavelmente também se cansou dos jogos do seu pai.
Você consegue lembrar quantas vezes no ano você viu seus pais durante sua infância?
Na maior parte da sua infância você estava com sua irmã e seus tios, em especial sua tia Aliria.
Vocês brincavam com seus primos que viviam perto, andavam pela Fazenda São João, se
banhavam nos tanques e subiam nos umbuzeiros para se divertirem. A diversão era sempre
estar em contato com a natureza, e também nessa época não se tinha tecnologias, como
televisão, já que nem tinha energia elétrica no sertão. Para ter luz à noite, contava-se com a
lua e, dentro das casas, com candeeiros à base de querosene, ao menos para poder enxergar
o café da noite e possíveis cobras ou escorpiões na cama ou onde se pisava.
Mas, apesar de toda a dificuldade de se viver no sertão, tinha as festas. As rezas para Santa
Bárbara, Santa Luzia, São Cosme e Damião sempre foram muito animadas e você sempre
se sentava na esteira, na roda de sete meninos, para comer caruru servido em pratos de ferro
pintados de branco. O caruru era feito de folhas de bredo, sempre acompanhado de arroz e
um frango cozido, que tinha de ser branco e criado no quintal da casa. Depois do caruru tinha
o samba de roda até o dia amanhecer, e você nem via o samba começar, porque àquela altura
já tinha ido dormir.
Outra festa muito importante no Nordeste e no sertão é o São João. Infelizmente essa festa
nem sempre foi tão legal para vocês, porque, diferentemente de todos seus amigos e primos,
você e sua irmã não ganhavam roupas novas para irem à festa, como rezava a tradição. Vocês
desenhavam roupas e sonhavam com o dia em que teriam roupas legais.
Apesar das dificuldades financeiras e da ausência dos pais, vocês foram crianças muito boas,
que sempre estudaram e seguiram seus próprios caminhos. Acredito que as pessoas que
passaram pela infância de vocês, ainda que de uma forma passageira, lhes ensinaram muito.
Em especial as mulheres que estiveram em suas vidas sempre se mostraram fortes e serviram
como fontes de inspiração, contra a pobreza, o racismo e o machismo.
Olhe para o seu passado e sinta orgulho de você, de sua irmã e dessas mulheres que estiveram
com vocês. Sinta que, apesar das dificuldades, vocês conseguiram trilhar novos caminhos,
superar a vocês mesmas e entender as suas fragilidades, tornando tudo isso em energia
para sobreviver a esse mundo. Vocês se tornaram mais humanas. Vocês nunca vão conseguir
olhar para uma criança ou uma mulher sem empatia. Considero que, mesmo com todas as
problemáticas já sabidas, a escola e depois a universidade tiveram um papel muito importante
na vida de vocês, por lhes permitirem acreditar que outras realidades eram possíveis. Eu sei
que chegar até aqui e entender a importância desses lugares não foi e nunca será fácil, mas
fique feliz! Acredite em você mesma e siga! Agradeça pela coragem, força e por nunca desistir!
51
Pequena criança, se fosse escrever tudo, precisaria escrever um livro. Sua vida até agora foi
cheia de muitos desafios e conquistas. E cada uma delas vale muito! Revisitar essa pequena
parte do seu passado pode trazer um pouco de nostalgia, mas já não precisa mais chorar
por isso. Mesmo você já tendo chorado muito, vi no seu rosto um pequeno sorriso, quando
falávamos sobre esta casa, sua tia e os lugares onde vocês brincavam. Acredito que agora
você tem mais maturidade e mais empatia com você mesma e tenta entender as dificuldades
da sua vida como combustível e fonte de inspiração para si mesma e para as mulheres que
viveram ou vivem experiências similares.
Foto: Arquivo pessoal de Regiane Marques Lindner
53
MangLar /
maNguezal
55
felix salgado, jaime gómez, tacy campos, thamy nascimento
Texto: Jonas do Nascimento
“Sou Eu” é uma poesia visual produzida pelo grupo colombiano-
brasileiro formado por Felix Salgado, Jaime Gómez, Tacy
Campos e Thamy Nascimento, que apresenta uma mistura de
diferentes disciplinas artísticas como música, dança, literatura
e poesia, com o objetivo de provocar a consciência racial e
social em sociedades multiculturais de passado escravocrata
que resistem a um mundo de caos e violência decorrentes da
intolerância e do racismo.
Soy Yo / Sou Eu
Como ato poético, “Sou Eu” é também uma poderosa expressão política que se insere no
contexto pós-colonial brasileiro e colombiano, no qual a luta por reconhecimento e igualdade
continua a ser um debate central em ambas as nações. Aqui, a sua voz poética se afirma como
um sujeito que transpassou gerações, que é a base da humanidade, simultaneamente, a morte
e a vida, cujos sentidos variam nos tempos e também dependem de quem a define.
“Sou Eu” enfatiza que sua presença é fundamental para a sobrevivência humana e, ao mesmo
tempo, desafia os estereótipos raciais que ainda permeiam as sociedades latinoamericanas.
O “eu” aqui poético é, explicitamente, identificado como preta, mulher e deusa que convoca
outras pessoas marginalizadas – incluindo pessoas LGBTQIA+ e povos indígenas – a se
unirem em uma comunidade de resistência.
O uso da linguagem agressiva e contundente – abarcando referências ao feminicídio, genocídio
da juventude negra, Covid-19 e às abordagens policiais urbanas – aponta para a brutalidade
contínua que essas comunidades enfrentam. “Sou Eu” reivindica sua posição como uma
entidade divina, afirmando que ela é a criadora e a progenitora de todos. Ela exige respeito
e reconhecimento, promovendo uma visão de mundo em que a justiça e a igualdade sejam
centrais.
Como um exemplo vívido da poesia pós-colonial, “Sou Eu” desafia a história oficial, as normas
sociais e as políticas atuais, defendendo a justiça histórica e a legitimidade de SER quem se é
em um contexto social profundamente marcado pelas desigualdades social, racial e de gênero.
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Video: “Sou Eu”
Identidades
¿Quién soy? No lo sé.
¿Quién soy, para qué saber?
Si a algo de luz y algo de alba
lo nombraron amanecer,
¿Por qué a este escuálido ser
lo llamarían así sin saber?
Si ni yo mismo me conozco.
Y entre tantos estereotipos
me llaman fracasado,
me siento rechazado.
Pero al final, es en la penumbra
de identidad fija
que me tiene atrapado.
jaime gómez
Foto: Ana Clara Magalhães
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Ya sé quién soy / Já sei quem sou
Já sei quem sou.
Sou Jamira, mas, um dia, Janice.
Vivi personagens tão diferentes, mas Janice foi real.
Real por um período, mas não resisti.
Jamira invadiu meu ser.
Demorou de pousar no meu coração
agoniado, ferido e machucado,
mas firme no desejo e sonho.
Sonho sustentado pelo amor,
dentro e fora com o tempo,
no limite da raiva e do perdão,
retornando à vida feita à mão.
Curada pelo instinto que, ferido pelo tempo,
levou às lágrimas o meu ser.
Dá força de ser e poder do nome Jamira.
Janice se transformou na vida:
Ja-mi-ra...
jamira alves muniz
Foto: Heder Novaes
63
Palafitos /
Palafitas
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Man0 Xandã0
Texto: Jonas do Nascimento
“Se passa não, fi” de Man0 Xandã0 é um relato contundente
das dificuldades enfrentadas pelos habitantes da periferia
e sua luta contra a opressão e a marginalização. O rapper,
considerado como um contador de história de nosso tempo,
aborda temas como a desigualdade social, a violência policial,
a corrupção política e a falta de oportunidades nas periferias
brasileiras. O tom de indignação e revolta é evidente em toda
a música, e o narrador parece estar falando diretamente para
os jovens negros que se sentem oprimidos pelo sistema.
No te engañes, hijo / Se passa não, fi
O verso inicial é particularmente significativo, pois evoca a noção de que, às pessoas na
periferia, é frequentemente atribuído o papel de limpar a bagunça deixada pelos poderosos.
Essa ideia é explorada ainda mais quando o rapper menciona a Covid-19 e a eleição do
presidente Jair Bolsonaro, vista pelo compositor como sintoma de um sistema que há muitos
anos não funciona para as pessoas daquele espaço social.
Além disso, a música é repleta de referências à história e à cultura negra, incluindo a menção
à Tereza de Benguela, uma líder quilombola do século XVIII. O rapper apresenta uma visão
crítica do Brasil atual, na qual se vislumbra uma sociedade que não valoriza suas raízes e onde
as pessoas são relegadas à própria sorte. Há uma sensação de que a marginalidade é uma
condição crônica, uma prisão que mantém as pessoas em um estado de desesperança.
No entanto, apesar do tom sombrio, a música também é uma celebração da resistência e
da força dos habitantes da periferia. O rapper fala em termos de “guerreiros” e “revolução”,
indicando que a mudança é possível, embora talvez não seja fácil. Ele faz um apelo à formação
educacional como um antídoto para a ignorância e a apatia.
Dessa forma, a letra da música representa uma crítica contundente e oportuna ao sistema
que oprime os pobres, pretos e periféricos do Brasil. É uma chamada à ação direcionada
aos jovens negros que lutam por mudança e um lembrete de que a marginalidade é uma
questão coletiva, que requer solidariedade e organização para ser resolvida. Man0 Xandã0
usa, portanto, a linguagem do Hip Hop para dar protagonismo àqueles que são silenciados e
marginalizados pela estrutura social desigual brasileira e seu passado escravocrata.
69
Video: “Se passa não, fi”
Man0 Xandã0
Ve a buscarlo, nunca estarás solo / Vá em busca, você nunca estará sozinho
Então eu saí de casa, sem destino, sem ter para onde ir nem onde ficar. Recordo-
me da minha mãe em prantos pedindo que eu não fosse, por medo de algo ruim
acontecer comigo...
Nasci numa casa de palafitas, meu cantinho do céu, onde cresci vivenciando todo aquele
cenário, que muitas pessoas se referem como local de pobreza, miséria, sofrimento. Apesar
de existir tudo isso, foi lá que desde cedo aprendi o senso de coletividade, solidariedade,
respeito, amor, proteção e felicidade. Ver os moradores se juntando para ajudar quem estava
mais necessitado era cena corriqueira. A destemida e famosa maré de março, período do
ano em que a maré enche e chega num nível bem acima do que de costume, se para quem
morava em terra firme, chegava a ocorrer enchentes, para quem morava nas palafitas, as casas
ficavam metade submersas, com estofados e eletrodomésticos danificados. Os moradores se
reuniam para ajudar a solucionar esse problema e cada um contribuía com uma quantia de
dinheiro para comprar madeiras e materiais, a fim de elevar o nível das casas afetadas, para
que, quando viesse a bendita maré de março, não afetasse as casas novamente. Além disso, o
mutirão acontecia e era regado a muita música, cantigas e uma deliciosa feijoada.
Aquele lugar tornou-se o meu xodó. Ali aprendi muitas coisas boas, como a alegria, a amizade,
vivências, brincadeiras e trocas entre os moradores. Foi lá também que eu consegui desenvolver
pouco a pouco o meu lado lúdico, porque, afinal de contas, eu era criança e gostava muito de
me divertir. Adorava correr pelas pontes sem medo de cair delas, empinar pipa, jogar bola,
brincar de polícia e ladrão, esconde-esconde, videogame, bicicleta e muito mais.
Daí eu fui crescendo, me tornei adolescente e a cada dia fui amadurecendo e obtendo
responsabilidades: cuidar dos meus irmãos menores, enquanto os meus pais saíam para
trabalhar, estudar, tomar conta da casa e arrumá-la e, de vez em quando, fazer comida. Assim,
eu fui dando seguimento na minha vida e logo aos 16 anos havia feito vários amigos. Com um
deles me entendia tão bem e éramos tão parecidos nos traços e no comportamento, que as
pessoas da comunidade chegavam até a pensar que éramos gêmeos.
Esse amigo tinha parentes envolvidos com o movimento2 e passei a ter acesso a um monte
de coisas ilícitas, como drogas e armas. Chegamos a portar armas que estavam guardadas
em sua casa e pensamos em nos vingar de um grupo de rapazes com quem tivemos alguns
contratempos. Uma vez chegamos a planejar dar um susto neles, mas, por algum golpe de
sorte, não os encontramos na rua em que costumavam ficar e eu entendi aquilo como uma
chance de rever minhas atitudes.
2 Tráfico de drogas.
Passados alguns meses, comecei a ajudar meu pai no seu trabalho, na construção civil. A cada
dia eu aprendia e aumentava os meus conhecimentos na área, até que me tornei adolescente
e fiz um curso nessa área para o Programa Primeiro Emprego. Pouco mais de um mês no
projeto, a empresa Andrade Mendonça recrutou jovens para uma experiência de trabalho. Foi
daí que obtive a minha primeira oportunidade, trabalhando durante um ano como aprendiz
de pedreiro e pintor, para após um ano ser contratado como ajudante prático. Com o tempo,
porém, eu vi que aquilo ainda não era o que eu queria de verdade, então saí da empresa em
poucos meses, recebendo pelos tempos de serviço.
Talvez não quisesse repetir a história da minha e de tantas famílias negras. Minha mãe, dona
Kátia, era filha de mãe solo, ambas de Campo Formoso, cidade do interior da Bahia. Minha
avó era empregada doméstica e, como ela mesmo contava, sempre trabalhou desde os 15
anos. Minha mãe começou a estudar até a oitava série do primeiro grau, mas as condições
precárias a fizeram largar os estudos para trabalhar juntamente com minha avó, ajudando a
lavar, passar e cuidar dos filhos dos brancos. Cenário esse que não é muito divergente do que
presenciamos hoje: famílias e pessoas negras como empregados, serviçais etc. dos brancos.
A decisão de sair do meu primeiro emprego causou uma grande reviravolta na minha vida,
já que meu pai começou a brigar comigo por causa disso. Ele me batia muito, me esmurrava,
dizendo-me coisas horríveis: que eu ia virar traficante e ia morrer e que ele não queria filho
vagabundo dentro de casa. Após uma falta minha em um curso e ter mentido para ele (depois
de ter mentido muitas outras vezes para a minha mãe, pelo mesmo motivo), meu pai resolveu
me botar para fora de casa.
E foi então que eu conheci, através de Marcos, um dos irmãos de Jonas, um grupo de street
dance chamado Conspiração. O grupo fazia parte da REPROTAI e eu passei a participar,
conhecendo a rede, quando ouvi falar pela primeira vez sobre Jamira. Consegui chegar até
ela e comecei a estabelecer um relacionamento mais próximo. Ela me estendeu a mão e
conseguiu um lugar para eu ficar, a Casa da Juventude, onde estou até hoje. Como eu estava
desempregado na época, ela conseguiu uma vaga de trabalho para mim, via Associação
de Moradores do Conjunto Santa Luzia, na Escola Comunitária Luiza Mahin. Permaneci
lá durante um ano, exercendo a função de apoio, e também participando de formações,
discussões, seminários, reuniões, atuando como facilitador de arte-educação da escola.
Tinha disponibilidade para viajar, estudar no turno da noite e ainda participar dos encontros
da REPROTAI. Finalmente fiz a oficina de iluminação cênica e no ano seguinte fui indicado
por Jamira e logo contratado pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA), para
trabalhar como técnico em iluminação cênica no Espaço Cultural Alagados.
71
Buscar esses momentos lá no fundo da nossa memória é
muito importante, por me trazerem de volta à vida e não
me deixarem esquecer o quanto eu cresci, evoluí, abri o meu
campo de visão, despertei, enfim, amadureci. Hoje penso
onde estou, e qual a minha missão aqui, pois aquele menino
franzino, que era tão discriminado pela sua classe, cor e
fisionomia, tornou-se um homem que se desafia e reinventa
a cada dia, buscando e sonhando com a revolução, sendo
capaz de se ver em cada referência que lhe é apresentada.
E sou muito feliz por ter contrariado as estatísticas de que
negro morre cedo, não faz história, nem morre de velhice,
mas de banzo. Espero poder contar para os meus netos
essas histórias, orgulhosamente, pois cada ponto e cada
vírgula compõem esse universo de possibilidades de saberes
e inteligência que sou. E a cada dia que passa, a sede só
aumenta na procura de conhecimento, vivências e caminhos
de possibilidade. Acredito que as amizades irão vingar e
transpassar os muros da cegueira, da incredulidade, da
traição e da desconfiança, nos trazendo o verdadeiro gosto
da liberdade, da diversidade, da equidade e até mesmo da
reparação histórica.
Seguindo na minha labuta, por isso sigo meu
caminho, mainha disse: “vá em busca, você nunca
estará sozinho.”
73
Foto: Ana Clara Magalhães
Queremos Poder
É o poder do agora que me faz melhorar.
Sou negra, sim! Negra eu sou.
Sou negra, com força, orgulho e fervor!
Minha história negra revertida em transformação.
Meu grito soa em mil ecos.
Nossa voz é o trovão.
Eu tenho a garra de Dandara e Zeferina.
Elas ainda vivem em todas que lutam
por liberdade sem hipocrisia e sem demagogia.
Eu aprendi a lutar.
E juntas, nós, mulheres feministas,
vamos sempre reivindicar:
nas ruas, nas praças, no campo.
Por justiça sempre a lutar.
Todas juntas, todas unidas a liderar.
Cada espaço político, poder, iremos alcançar.
Somos livres e juntas vamos nos revolucionar!
tatiane dos anjos mattos
Foto: Ana Clara Magalhães
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Manantial /
Manancial
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carolina beleño garcia, man0 xandã0, gabriel dias, natalia carmona morales
Texto: Diana Mignano
Los seres humanos procedentes de África que fueron
esclavizados y traídos a la fuerza al actual territorio americano
llevaban consigo sus estrategias de resistencia, memoria y
curación. En este sentido, por ejemplo, se sitúa la creación de
pueblos autóctonos, como los Palenques en Colombia y los
Quilombos en Brasil. Estos fueron desde el principio no sólo
espacios de lucha y resistencia, sino también espacios donde
ha tenido lugar la construcción dinámica de la memoria y la
creatividad.
Hilando raíces de un legado / Fiando raízes de um legado
Si bien las historias y el presente de las poblaciones afro a lo largo del territorio americano
deben ser pensadas siempre desde los procesos traumáticos sociales, culturales, políticos y
económicos que se generaron a través de la esclavización, es importante y necesario reconocer
y aprender de las memorias ancestrales. Debido a la resistencia, la agencia y las estrategias,
tanto de los esclavizados como de sus descendientes, la memoria pudo resistir a los diferentes
tipos de violencia y deshumanización a los que fueron y aún hoy en día son sometidos. “Fiando
Raízes de um Legado”, abre justamente espacios de reflexión sobre estos líderes y lideresas
sociales y culturales a lo largo de toda la historia.
El relato que se desarrolla en “Fiando Raízes de um Legado” refleja la complejidad de las
memorias de estas comunidades ancestrales como instrumentos históricos de resistencia,
para enfrentar las violencias estructurales y los daños históricos y así defender la vida y sus
territorios. Asimismo estos lugares, los que desde su nacimiento surgieron como lugares
de construcción de libertad, demuestran la capacidad humana de crear estrategias en los
espacios y momentos históricos más violentos y deshumanizantes que hasta el día de hoy no
han sido resarcidos y reconocidos por sus autores. Por el contrario, los pueblos afro a lo largo
del continente americano, continúan con su lucha por el reconocimiento de su autonomía y
por la preservación de sus costumbres, cultura(s) y territorio(s).
81
Video: “Fiando Raízes de um Legado”
natalia carmona morales
Las alas del resurgir / As asas do ressurgimento
¡Escuchen, amigos míos! Voy a contarles partes de mi historia, para que cuando me conozcan y
analicen mi carácter, comprendan las razones y no estén tan perdidos.
Era un día de escuela como cualquier otro, tenía cinco años y cursaba transición en una escuela
pequeña a pocas calles de mi hogar. Todo comenzó con la alarma estruendosa del teléfono,
hizo que abriera mis ojos a las 5:00 am y todo estaba oscuro. Llamé a mi madre que, cansada
por el trabajo del día anterior, se levantó de la cama para prepararme para ir a la escuela. Hizo
el desayuno, mientras yo me aseaba y me vestía con camisa blanca bien planchada, jumper de
cuadros azules impecable, medias blancas nuevas y zapatos negros bien lustrados.
Al terminar el desayuno, yo lo comía y me sentaba en una pequeña silla verde y mi madre me
peinaba con coletas blancas y trenzas que resultaban muy apretadas; sin embargo, ella decía
que así estaba bien porque debía estar bien presentada. Posterior a eso, me rociaba perfume y
me untaba crema con olor a coco en cada parte del cuerpo.
Una vez lista, tomaba mi mochila y salíamos agarradas de la mano juntas a la escuela. Dábamos
los buenos días a todo el que se atravesara en nuestro camino; ella solía decir que “la educación
no pelea con nadie”, así que, conocido o desconocido, igual brindamos un saludo. Caminamos
solo dos calles y al llegar en la reja alta de color rojo de la escuela, había un cartel que decía: “Hola
papitos, se les recuerda que estamos en semana de exámenes, favor pagar la mensualidad. Que
tengan buen día” y al final tenía una carita feliz.
Mi madre lo leyó e hizo un gesto de preocupación; me dio un beso en la frente, me deseó
buen día y éxito en los exámenes. Sonó la campana que avisaba que era hora de entrar a las
clases y subí esos tres escalones rojos mientras ella se marchaba con la cabeza agacha con sus
preocupaciones a casa.
Al pasar la primera puerta, estaba mi salón; en él se encontraba Yenedid, una mujer obesa con
cara de amargada que recibía las maletas de los niños. En el proceso infundía temor y pánico;
tanto así que a los niños más pequeños los hacía llorar hasta que terminaba la jornada. Ella era
mi maestra, siempre estaba observándonos desde una esquina del salón en una silla de madera
junto a un escritorio repleto de cuadernos, libros, hojas y muchas “cosas de profesores”.
En mi inocencia creía que era un día de exámenes como cualquier otro, pero sin saberlo, sería el
comienzo de muchas dudas existenciales.
Cuando mis compañeros y yo nos sentamos en nuestros respectivos lugares, la maestra Yenedid,
con voz gruesa y casi a los gritos, inició el llamado a lista. Llamó a siete estudiantes al frente,
entre esos estaba yo. Ninguno entendía el motivo, pero obedientes permanecimos al frente
mientras terminaban de pasar la lista. La maestra nos llevó a la terraza del colegio y allí dijo que
no haríamos los exámenes porque nuestros padres no habían hecho el pago de la mensualidad.
Al escuchar esas palabras, a pesar de ser una niña inteligente, como decía mi madre, no logré
entender por qué nos dejaron afuera del salón con el sol dándonos en la cara, sin sillas y llorando,
mientras mis demás compañeros hacían tranquilos los exámenes.
La jornada escolar llegó a su fin. Entre la multitud de padres que llegaban a recoger a sus hijos,
logré ver a la mía. Ahí estaba ella, con una sonrisa de oreja a oreja y su mano que se movía de
lado a lado brindándome el saludo más cálido y afectuoso. Rápidamente me puse la mochila y
corrí hacia ella, pero una mano grande y pesada me tomó del brazo, y me detuvo.
Era Yenedid, quien al ver a mi madre, la invitó a hablar dentro de la escuela. Me quedé afuera
esperando que ellas hablaran, y cuando terminaron, mi madre y yo fuimos rumbo a casa sin
decir una palabra. Al llegar a casa nos recibió Jerry, un perro pequeño, criollo, muy alegre y
juguetón; en su lomo tenía pelo negro y en la panza era café, su pelaje era tan suave como la
brisa de verano. El animal se montó encima de mí, y con lengüetazos en la cara logró sacarme
una sonrisa después de una caminata silenciosa junto a mi madre.
Sentada en la mecedora de la sala, sin pensarlo dos veces le conté a mi madre lo que nos
había hecho la maestra. Hablaba con voz de molestia, y sin poder entender la situación, le dije:
“¿¡PORQUE MAMI?!” En el segundo siguiente me vi hundida en un valle de lágrimas sin poder
entender nada. Mi madre, al ver mi reacción, se sentó frente a mí y con la mirada fija en mis ojos
café oscuro, me dijo: “No llores, niña, te voy a explicar cómo funcionan las cosas. Tu padre y yo
queremos que sigas siendo una niña inteligente, para eso tengo que inscribirte a escuelas muy
buenas en las que puedas recibir la educación que te mereces. Y eso tiene un costo.
Tengo que pagar cada mes a la maestra para que realices los exámenes como los otros niños,
de lo contrario te pasará lo que hoy aconteció. Tu padre y yo trabajamos como burros para que
tengas todo lo mejor en el mundo, así que prométeme que serás siempre una niña inteligente.”
Asintiendo con la cabeza le dije que se lo prometía, y con un fuerte abrazo cerré el trato.
En mi cabeza aún rondaban muchas preguntas como: ¿Por qué nos dicen que tenemos derecho
a ir a la escuela, y cuando estamos ahí, no nos dejan hacer los exámenes como a los demás?
¿Por qué nos veían raro y se burlaban cuando pasamos al frente? ¿Si llevo todo el dinero del
mundo a la escuela, todos los que estaban conmigo no pagarán jamás? ¿Por qué el dinero es tan
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importante para la maestra y qué hace con él? ¿No basta con ir bien presentada a la escuela y
estudiar mucho? ¿Cada vez que mis padres no tengan para pagar, se burlarán de mí? – preguntas
que años más tarde obtendrían respuestas. Hasta entonces, solo podía pensar en cumplir mi
promesa. Y no quiero adelantarme a los hechos, chicos, pero ¡lo logré!
Al siguiente día, sentada en el salón de clases como era costumbre, se escuchó esa voz aterradora
pasando la lista. Uno por uno, la maestra llamó a todos los estudiantes de la clase y ¡oh sorpresa!,
llamó al último niño, sin embargo, a ninguno de nosotros se nos ordenó pasar al frente. En mi
mente pensé que la charla que habían tenido los padres de aquellos marginados infantes con la
maestra valió la pena.
Ese día y el resto de la semana, todos los estudiantes de esa clase pudimos hacer los exámenes
sin ninguna novedad. Jamás supe qué clase de pacto con el diablo tuvo que hacer mi madre para
conseguir el dinero de los exámenes de esa semana. ¿Saben qué? Ahora que lo pienso, no me
sorprende que lograra conseguir esa cantidad en menos de lo que canta un gallo. ¡Por el amor a
Dios, hablamos de mi madre! Esa mujer es increíble y por mí haría lo que fuera.
Llegó el gran día. El día en que esa horrible y gruñona maestra calificaría los exámenes, y al
final de la jornada, cuando nuestros padres pasaran por nosotros para llevarnos a casa, se haría
la entrega. Estaba tan ansiosa que no pude evitar comerme las uñas. La estruendosa campana
sonó, eso significaba una sola cosa: era hora de salir y saber la verdad. Vi cómo uno por uno, el
salón de clases se quedaba vacío. Fui una de las últimas a quien pasaron a buscar.
Cuando llegó mi madre, la hicieron pasar a la oficina, lo cual estaba fuera de lo común; los otros
padres recibieron los resultados en el salón de clases. Al darme cuenta de esto, mi ansiedad
aumentó muchísimo. Solo podía pensar: ¿Qué habrá sucedido? ¿Acaso mis pruebas estuvieron
mal? ¿Hay alguna queja sobre mí? Eran muchos interrogantes sin respuesta y la espera me
pareció una eternidad.
Lo interesante de la situación es que ni ustedes ni yo se imaginan qué pasó después...
Cuando mi madre pasó por esa puerta, corrió hacia mí, y me abrazó tan fuerte que no podía
respirar. La felicidad no cabía dentro de su cuerpo y yo no era capaz de entender por qué estaba
tan feliz. Después de ese abrazo lleno de amor, me miró a los ojos y me dijo: “Eres y serás la
niña más inteligente del salón y de todo el colegio, nunca dudé de ti.” Hasta ese momento no
entendía qué significaba lo que decía, y sin saberlo, mi madre en su mano tenía lo que cualquiera
habría visto como unas simples hojas de papel; para ella y para mí era el inicio de grandes éxitos.
Yenedid se posó frente a mí con una sutil sonrisa y con una extraña voz suave me dijo:
“¡Felicitaciones! Todos los exámenes que hiciste fueron perfectos. Creemos que no es necesario
que sigas en este curso con el conocimiento que tienes. Me alegra decirte que abandonas el
curso de transición para estar en uno más avanzado.” No podía creerlo, y de inmediato la abracé,
y lo último que recuerdo es haber saltado como conejo el resto del día.
Ese pequeño instante en el que fui discriminada por dinero se quedará conmigo hasta el resto
de mis días porque desde ese momento, entendí que el sistema de educación está roto. ¿Pero
qué puedo hacer para repararlo y que otras personas no tengan el poder de decidir por nosotros?
Ustedes y yo queremos tener total control sobre lo que ocurre en nuestras vidas. Sentir que
tenemos que cambiar, que debemos cambiar, que podemos cambiar, que todo será diferente
cuando seamos diferentes, que las cosas irán mejor, y que dentro de la arbitrariedad del mundo
hay una cosa que sí puedo controlar, y que necesito controlar – eso va en nosotros. ¿Están de
acuerdo?
El poder de la palabra
Hay momentos de la vida en los que uno no tiene ni la menor idea del poder de la palabra. No
siempre se tiene conciencia de las repercusiones que tienen las expresiones de “galantería” o
“elogio” lanzadas a quienes contemplan la realidad totalmente al revés, y que no tienen ningún
tipo de interés en aceptar sus palabras.
Así me sentí yo aquel 09 de febrero del año 2020. Caminaba por el centro de la ciudad que me
vio crecer, con su gente que lleva alegría sin fin hasta sus playas cristalinas, un sol radiante que
calienta y ablanda hasta al más frío corazón, y deliciosos platillos que dan ganas de bailar y gozar
como si el mundo se acabara. Así es mi Cartagena. Fue así, como él quedó encantado y decidió
visitar por algunos días el Corralito de Piedra. Y ahí estaba él, caminando hacia mí. Un hombre
joven, alto, de contextura media, que vestía una camisa y bermuda blanca, y un sombrero con
listón negro que decía “Cartagena” en una delicada letra cursiva. Con mirada coqueta, aquel
hombre que yo no conocía, se posa en frente de mí, y con ojos penetrantes y voz segura me dice:
—Eres una negra muy hermosa.
Se quita el sombrero y hace una reverencia; acción que me dejó sin cuidado y a la que no tuve
ninguna reacción, solo seguí caminando como si él no existiera. Pude notar que el desconocido
con cara de decepción se alejaba. Por el contrario, yo con frescura y con una sonrisa en el rostro,
seguí mi rumbo.
No pasó mucho tiempo para que me diera cuenta que detrás de mí, un señor de edad muy
agitado trataba de contactar conmigo y gritando decía: “¡Niña, espere! ¡Espere!” Al darme
cuenta que su llamado era para conmigo, me detuve. Al llegar junto a mí, me estrechó su mano
y educadamente me dio las buenas tardes. Era vendedor ambulante de la zona, quien llegó con
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una enorme lámina de icopor y su mercancía, lentes de sol para aquellos que desearan tener
un paseo por la playa más placentero. Lo dejó en el piso, tomó una bocanada de aire fresco y
apuntándome con el dedo, me dijo con voz represiva:
—¡No se deje decir negra por nadie! ¿Acaso no se da cuenta que ese tipo de gente lo que quiere
es hacernos menos? ¿Humillarnos y hacernos sentir poca cosa? ¡No se deje decir negra de
nadie, que usted no es negra!—me dijo alterado.
Rápidamente traté de calmar al anciano y le dije:
—No me lo dijo despectivamente, no se preocupe por eso. Esos comentarios no me molestan,
ni siquiera les pongo atención.
Pero sin saberlo, mi respuesta alteró aún más la situación. Mis palabras no le gustaron para nada
y a los gritos me lo hizo saber:
—¡Esa palabra es denigrante! Ese hombre al que defiendes porque supuestamente no te lo dijo
de manera despectiva, es un racista. Y a personas como tú y yo nos tratan como objetos y cosas
que pueden usar a su antojo. No está bien, y vea que se lo digo hoy. ¡Escúcheme con atención!
Llevo setenta y seis años en este mundo y sé bien cómo funciona esto. No se deje de nadie,
estudie, sea una profesional, y por el amor a Dios, no se deje decir “negra” si quiere vivir una vida
larga y digna.
Cuando terminó de hablar, se despidió, tomó su lámina de icopor, y sin medir más palabras, se
marchó. No esperó una respuesta de mi parte. Supongo que asumió que su mensaje fue tan
claro que no lo podía refutar. Sin embargo, se equivocó, porque sin querer dio inicio a un debate
interno sobre un tema que hasta el sol de hoy me persigue.
Ese día, de camino a casa solo podía pensar en la palabra N E G R A. ¿Qué significa la palabra
“negra”? ¿Es el uso del lenguaje racista para estigmatizar a nosotros los afrodescendientes?
¿Es un titular despersonalizado ofensivo e indignante? ¿O se refiere a una expresión llena de
verdad y amor dicha a seres valerosos de piel oscura que con su negritud representan la alegría
y la lucha? En ese instante, no lo tenía tan claro. Con la mirada perdida por la ventana del bus,
escuchando el choque de las olas con las grandes rocas en la orilla de playa, en mi cabeza
rondaban todas las veces que mi hermano mayor, mis tíos y mis amigos me decían negra con
voz natural. Hablaban para saludarme, para pedir un favor o cualquier cosa.
Yo solo podía pensar en lo que me hacía sentir, y honestamente nunca me había molestado
porque alguien me dijera “negra”, porque lo soy. Reconozco que soy negra, y no me miro como
los otros quieren, el negro no tiene imaginarios negativos. Pasé por el momento decisivo y me
llené de conciencia; hoy, me rodeo de muchos de nosotros que funcionan a un ritmo distinto
cuando hablamos de negro y negra.
Foto: Archivo
personal de
Natalia Carmona
Morales.
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Amigos míos, nunca es tarde para amar nuestra identidad negra. SOMOS NEGROS, SOMOS
NEGROS ORGULLOSOS Y NEGROS CON ANCESTRALIDAD PODEROSA. Estas son las
poderosas palabras de la poeta, compositora, coreógrafa y profesora Victoria Eugenia Santa Cruz,
una vez logró entender. No siempre fue así, porque en algún momento se mostró tan confundida
como yo. Un suceso en su niñez la llevó a escribir el poema rítmico “Me gritaron negra”, en el
que nos cuenta que una niña se mudó a su barrio, una niña de tez blanca, y una tarde, la nueva
vecina —una pequeña de cabellos claros— les advirtió, con arrogancia, a sus amigas: “Si esa
negrita juega, yo me voy.” Pero viéndolo bien, somos entonces testigos de la lucha que va de la
debilidad a la fortaleza, y de la vergüenza al orgullo por las raíces africanas. La fuerza de Victoria
me despertó y logré obtener la verdad que no se puede negar. Y hoy grito al cielo sin dudas ni
titubeos: hoy sé quien soy, ¡Negra soy!
El sonido del silencio / O som do silêncio
Shhhhh.
Tic tic tic.
El sonido del silencio,
es un alto en mi camino
y agudiza mis sentidos.
Es el consuelo de tu amargura
y en tiempos de premura,
su marcha no se apura.
El sonido del silencio
es la pausa de mi ritmo,
el ritmo que pocos escuchan,
pero que muchos oyen.
Todos lo dejan de oír,
todos lo quieren callar,
pero el sonido del silencio
es quien me pone a bailar
esta danza que es mi vida.
Llena de altos y bajos
compone con sentido
me pide este sonido.
Que en tiempos de soledad
le da calma a mi alma,
esta alma que me calma
el ritmo de mis latidos
que junto a este sonido.
Shhh.
Tic tic tic.
Ahora todo tiene sentido.
fernando vargas jr.
Foto: Ana Clara Magalhães
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Selva /
Mata
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carolina beleño garcia, matchume zango
Texto: Diana Mignano
La memoria y el reconocimiento de la importancia del
lugar que esta ocupa en la construcción de las identidades
colectivas y en la reconstrucción del tejido social se convierten
en el hilo conductor de la pieza audiovisual producida por
Carolina Beleño Garcia y Matchume Zango. El acercamiento
a la memoria social y colectiva, en países como Colombia, en
los que situaciones de violencia política han hecho y hacen
parte de la vida de millones de sus habitantes, permite la
emergencia de las voces ocultas, silenciadas y desterradas
de sus protagonistas y testigos.
Memorias de una generación con olor a café / Memórias de uma geração com
cheiro de café
“Memorias de una generación con olor a café” es la memoria, son las voces y los traumas que
han pasado y se siguen transmitiendo de generación en generación a causa del destierro de
familias y poblaciones enteras que tuvieron que huir y dejarlo todo atrás, incluso los cuerpos
de sus hijos muertos o de aquellos que fueron reclutados forzosamente. Pero también esta
pieza audiovisual se convierte en una catarsis a través de melodías que se combinan con
movimientos corporales, para generar un nuevo comienzo, una nueva historia.
Estas historias llegan para deconstruir los relatos y discursos oficiales que han invisibilizado
y marginado aún más a las víctimas de sus narraciones. Ellas son la resistencia al olvido,
resisten para contar y no callar. Esta obra de videoarte demuestra que el ocuparse de la
memoria requiere de un diálogo y un acercamiento que traspase los límites del texto: un
acercamiento inter - multi - transdisciplinar - sensorial.
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Video: “Memorias de una generación con olor a café”
carolina beleño garcia
Dos de mis olores favoritos son el olor a tierra mojada cuando llueve y el olor a café. Este último
me encanta porque evoco cada mañana muy temprano, a mami Ana, desmontando la olla
hirviendo del fogón de leña, para luego vaciarla en el termo, porque en su casa no podía faltar
el café. Si llegaba visita, tenía que brindarle para sostener una buena conversación. Esa imagen
siempre me llenaba de felicidad. Mis abuelos maternos siempre me han inspirado. Cada vez que
retornaba a mi preciado terruño Cicuco, Bolívar, puerta de oro de la Depresión Momposina –
un lugar terriblemente explotado, pero que sigue en pie – me encantaba hacerme al lado de la
ventana para poder ver el paisaje que rodeaba el bus donde viajábamos, normalmente con mis
padres y mis hermanos. Podía ver la luna en el cielo despejado y corría por mi mente una novela
romántica con música vallenata de fondo. Dormía mucho durante el viaje, pero siempre estaba
despierta cuando el bus llegaba al final de Talaigua, ansiosa de ver el camino amarillo hecho por
los pétalos de cañaguate que estaban a cada lado de la carretera.
Llegando al puente para pasar al sector El Limón, donde vive la gran mayoría de mi familia,
lo primero que veía era la casa del señor Victoriano y la señora Ana, mis abuelos maternos.
Antes, una casa de palma hecha con boñiga de vaca y bahareque, que enfrente tenía un árbol
de puyas y una vista directa a la ceiba, el caño El Violo, un brazo del río Magdalena. Después de
un tiempo, pasaron a vivir a otra casa que queda justo al lado, hecha en bloque y techo de zinc;
especial para sentir miedo mientras llueve, gracias al imponente sonido de las gotas de agua
cayendo. Cuando llegaba la hora de visitarlos, solo esperaba con ansias el abrazo de mami Ana
y el “Dios me la bendiga” de papi Víctor. Amaba verlos juntos y escuchar esos cuentos largos,
tristes y lastimosos, como dice el señor Victoriano García que aún nos acompaña. Una y otra
vez, los dos viejos contaban su historia de amor y, por supuesto, a una romántica e idealista le
emocionaba escucharlos. Vivir con ellos una parte de mi infancia fue maravilloso, sentir el frío
que traía la brisa que pasaba sobre el río era inspiración, la sensación de libertad era inmensa.
“Cuando yo me muera, ¿Quién me llorará? Los sapos en la laguna y las ranas en la quebrá...”
Ese era el peculiar canto de mami Ana, que terminaba de cantar con una desbordante risa, que
seguidamente Lorenzo, el loro de la casa, imitaba casi a la perfección.
Cuando era niña, el canto de los gallos y el olor a café eran una conjugación sublime que se
mezclaba con el sonido del radio del señor Victoriano. Despertar así cada mañana era algo que
aprovechaba al máximo porque era por tiempo limitado.
Cuando tenía nueve años, mis padres tenían un tiempo viviendo en Bogotá, y decidieron
llevarme con ellos para que la familia estuviera junta. Aquí comenzaría un proceso de adaptación
afrolina: eN búsqueda de una meMoria de identidaD y de superación /
afrolina: em busca dE uma memória dE identidade e Aprimoramento
que marcaría mi vida, y no es que no hubiera vivido acontecimientos que ya habían marcado
precedentes, que a tan corta edad, no lograba entender. Al principio, las emociones estaban a
flor de piel, y dejar todo atrás, me daba casi que igual, porque no dimensionaba todo lo que eso
significaba. Solo pensaba en que era bueno estar con mis padres y mis hermanos. ¿Qué tan
malo podría ser?
Friolenta y cambiante
Bogotá, Colombia, una ciudad fría en casi todos los sentidos, me recibía con un inclemente clima
que quemaba mi piel cada vez que el viento soplaba. Ahí comencé a extrañar la brisa fría del río.
Días después lloraba debajo de las cobijas porque extrañaba a mami Ana y Papi Víctor, luego
extrañé a mis amigos con quienes jugaba en la noche hasta que mi abuela Marlene, o como yo
la llamo, “mami Marlene”, me mandaba a dormir. “Pila pa´entro, mira como tienen esos pies
mojosos”, era su frase final que me hacía desistir de seguir jugando e irme a dormir, no sin antes
lavarme los pies en la alberca del patio a la luz de la luna, la sombra del palo de coco, el canto
de los grillos, sapos y, por supuesto, el miedo a que me saliera el “coco peluo” en medio de la
oscuridad.
Cuando entré al colegio a cursar tercero de primaria, traté de adaptarme lo más pronto que pude;
ya estaba casi resignada a que no volvería a vivir con mis abuelos. Empecé a escribir, algo que
realmente me gustaba. Escribía cualquier cosa que se me ocurría: cuentos, poemas y canciones
que normalmente compartía con Adriana, mi profesora de español, que siempre andaba con su
peculiar capul que llegaba un poco más debajo de sus cejas, y su bata blanca. Ella me apodó “la
poeta loca”; creo que era porque estábamos haciendo cualquier cosa y, de repente, le pasaba
un papelito con algo nuevo.
La idea de ser una escritora, una poeta empedernida, me llamaba mucho la atención. Tal vez
podría llegar a ser como Gabriel García Márquez; incluso pensaba en que por algo tenía su
mismo apellido, así fuera el segundo, era de la misma región y tenía como inspiración su terruño,
tal vez yo podría convertir mi pueblo Cicuco en el Macondo de mis historias, y la historia de mis
abuelos en una más romántica que “El amor en los tiempos del cólera”. Sinceramente no sé
hasta qué momento dejé de escribir de esa forma. Tal vez a medida que crecí, me interesé por
otras cosas y olvidé que amaba la escritura, que se disputaba el puesto número uno de lo que
más me gustaba hacer, porque otra de mis pasiones era el baile.
Después de estar un buen tiempo, el frío comenzó a traspasar mi piel. Ya no era tan habladora y
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extrovertida, como cuando bailaba para que mi tío Víctor me diera un pan de 50 pesos, bailaba
como Shakira y Michael Jackson o invitaba a mis amigos a jugar.
Cuando estaba pisando la puerta de la adolescencia, crecieron las inseguridades. Ya no me
gustaban los peinados que mi mamá me hacía para ir al colegio. Quería tener el cabello suelto
y alborotado, algo difícil porque en el colegio no lo permitían, y mi mamá tampoco, porque
fácilmente me pegaban los piojos, ya que siempre fui “sangre dulce”, como ella decía.
“Ya no es Carolina, ahora es Afrolina”, decía mi mamá cuando veía mi cabello suelto. A partir
de ahí, ese se convirtió en mi apodo y me encantaba; cada vez que lo escuchaba, sonreía y
recordaba una foto de mi padre, donde tiene un afro corto y negro que lucía con sus peculiares
cejas negras y abundantes.
En el colegio, el manual de convivencia era una joya para reprimir estudiantes, sobre todo a las
niñas. El cabello debía estar recogido, la falda tenía que llegar dos dedos debajo de la rodilla,
uñas no pintadas, cero maquillaje, no usar el uniforme de educación física los días de diario. Esto
último realmente me parecía bobo. ¿Por qué no puedo usar todos los días sudadera? O ¿Por qué
el uniforme de las niñas no puede ser un pantalón también? Sobre todo, porque me encantaba
jugar fútbol, y cuando llevaba uniforme de diario, no podía jugar bien.
“Mírala con las medias percudías, como ella es la que lava”, decía mi mamá cada vez que llegaba
con las medias sucias a la casa, después de haber jugado en el colegio. Las medias blancas se
volvían grises, cafés o verdes, los profesores nos regañaban porque se nos veía todo. Yo terminé
aceptando las reglas, y cuando quería jugar futbol, me quitaba la jardinera y me quedaba con la
pantaloneta que tenía debajo para poder jugar tranquilamente.
En sexto grado, todo el mundo ya se creía grande, estábamos entrando a bachillerato y los
adolescentes abundaban por todo el salón. Los estereotipos de belleza comenzaron a esparcirse
y ahora, las niñas buscaban la aceptación de los niños, verse mejor y más bonitas que otras.
Alexandra, una de mis amigas, negra, de cabello corto, ojos negros y una gran inteligencia, fue la
víctima de mi curso. Pero, estaba yo para defenderla porque era mi amiga, así que la siguiente
en la lista era yo. Se aprovecharon de mi cabello, de mi acento, que aún conservaba con recelo,
y mi nariz ancha.
En el colegio defendía a Alexandra y discutía con mis compañeros. Pero al llegar a casa y verme
al espejo, todo estaba cambiando. Ya no quería mi pelo, ni mi nariz, y de un momento a otro, mi
acento empezó a cambiar.
“¿Por qué no puedo tener mi nariz tan bonita como mis otras compañeras?”, decía mirando al
espejo con lágrimas en mis ojos, algo de lo cual nunca nadie se dio cuenta. Siempre le decía a
mi mamá:
—Cuando cumpla dieciocho años, lo primero que voy a hacer es operarme la nariz, porque esa
nariz no me gusta—a lo que ella respondía con mucha seriedad:
—Como si fuera tan fácil. Mira a esas mujeres que quedan mal operadas, además esa es la
herencia de tu abuela—decía refiriéndose a mami Marlene.
Las mañanas ya no olían a café, si no a cabello quemado, que alisaba con una plancha de ropa,
sobre una mesa y un periódico que cubría mi cabello, mientras me imaginaba siendo mayor
y cumplir ese sueño anhelado de mi nariz respingada; una nariz y un cuerpo bonito como el
de Shakira, que en ese entonces era la artista que más admiraba. Para mí, cualquiera era más
bonita que yo. Muchas de mis compañeras ya empezaban a desarrollarse, tenían las piernas
más gruesas, los pechos más grandes y todas esas características que, por supuesto, Carolina
no tenía. ¿Cuándo me van a crecer a mí? Soy toda flaca, sin gracia. ¡Mírame esos pelos! ¡Todos
alborotados! Era mi conversación constante conmigo misma.
En esta etapa de mi vida, ya entendía muchas de las cosas que habían pasado, y las que seguían
girando a mi alrededor. Debo admitir que muchas veces deseé ser hombre, y no era solo porque
estaba aburrida de tener que pensar la noche anterior qué peinado se me veía mejor para ir al
colegio. Era porque recordaba todas esas cosas que dejé de hacer porque era una niña, y los
miedos que sentía solo por el simple hecho de ser mujer. Jugar con carros, fútbol, volar cometa,
jugar bolita de cristal y bailar trompo, era lo que más me gustaba cuando se trataba de jugar. Pero
esta frase icónica del machismo siempre retumbaba en mis oídos: “Pareces una marimacho.” Y
aquí es donde viene la respiración profunda, la mente abierta y el corazón tranquilo.
A los cinco años, experimenté mi primer acoso sexual. Después, a los diez, y a los trece, un
hombre se masturbó a mi lado en la silla de un bus. A los catorce, sentí unas manos frías pasar
por mi pierna derecha debajo de las cobijas a media noche cuando todo el mundo dormía. Un
aprendizaje de este acontecimiento fue: primero, no confíes en alguien que dice ser amigo, pero
tu cuerpo rechaza. Enciende una alarma, sexto sentido o como quieras llamarlo. Y segundo,
asegúrate de dejar un rasguño para tener prueba de lo que dices; posiblemente no te crean. A
los veinte años, un hombre se masturbó detrás de mí en el bus de regreso a casa después de
la universidad. La suciedad que sentía en mis pies cuando jugaba descalza, no era comparada
con esta. Perdí la cuenta de las veces que me bañé, tiré la ropa que llevaba puesta a la basura y
no quería que nadie me tocara. Después de esto, no subí a un bus durante casi un mes y, cuando
decidí volver a tomar uno, pedía con todas mis fuerzas que no se sentara un hombre a mi lado. Y
si lo hacían, me cambiaba de puesto. De esto aprendí a escabullirme dentro del bus y buscar un
lugar donde pudiera sentirme “segura”. Cuando un hombre subía y pasaba por detrás, casi que
me echaba sobre la persona que iba sentada enfrente de mí. Por eso, muchas veces deseé ser
hombre. Tal vez pudiera caminar un poco más segura.
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Lo que viví, les ha pasado a miles. Cuando esto acontece, las preguntas llegan, la rabia incrementa,
las emociones se vuelven inestables y, tristemente, no todas pueden sanar estas heridas. Hoy
estos recuerdos causan ciertas sensaciones en mi cuerpo, pero el miedo ha perdido fuerzas.
Aprendí a ignorar los llamados “piropos” y las miradas morbosas. Aprendí que no es mi culpa
nada de lo que pasó, y que es difícil que una persona que no ha pasado por estas situaciones,
dimensione el daño real.
Vivencias sanadoras
2014, año en que comencé mi carrera universitaria. Después de unas vacaciones llenas de
emociones, ahí todo era diferente. El universo se abría y me mostraba toda la belleza de hacer
lo que realmente quieres hacer. Aún seguía con mis inseguridades y llevaba mi cabello liso. Al
menos, ya no lo alisaba con la plancha de ropa, gracias a que mi mamá me había cumplido
el capricho de comprar una plancha para el cabello. Igual quería operarme la nariz en cuanto
tuviera la oportunidad, era la parte que más odiaba de mi cuerpo.
Luego del primer semestre, las clases de teatro fueron la mejor terapia para fortalecerme,
comenzar a quererme como era, y la danza hacía que agradeciera tener cada parte de mi cuerpo.
Decidí dejar mi cabello libre de plancha (aunque como se hizo costumbre, lo hacía de vez en
cuando). Mis compañeros amaban mi cabello; me atrevo a decir que incluso más de lo que yo lo
quería en ese momento. Afrolina reclamaba su presencia de nuevo. Una de las cosas más bonitas
que me pasó en la universidad fue conocer a mis compañeros y ahora amigos, sobre todo a
Laura, una mujer bella, de ojos verdes, llena de bondad, que siempre llevaba un turbante gracias
a una terrible crisis de estrés que la despojó de su melena rubia, sus cejas y hasta las pestañas.
Conocer la historia de Laura y vivir con ella un proceso de recuperación increíble a partir de una
obra preciosa que se llamó “Hilando el tiempo de tus recuerdos”, fue una experiencia llena de
reflexión y de perdón conmigo misma. Así fue que un día me miré al espejo, acepté mi cabello
crespo ya maltratado, mi naríz heredada por mami Marlene, los vellos de mis brazos y todo de
mí. Pedí perdón a Carolina y pido perdón a mami Marlene, a su herencia, sus raíces, ese rasgo
precioso que ella y yo tenemos. Desde entonces me rebelé de muchas cosas que creía tenía que
ser y hacer por ser mujer; aunque no es fácil, aún lidio con muchas.
“La objetivación de la mujer es tan predominante que no la percibimos y en la juventud nos
esclaviza.”
Isabel Allende.
Después de todo, puedo sentir gratitud porque nutrí cada día ese amor propio. He tenido tantas
experiencias a lo largo de mi proceso que han hecho reafirmar mis raíces. He ido a lugares de
donde me he sentido parte y, las conexiones son profundamente inexplicables. He conocido
personas increíbles que me han dejado grandes enseñanzas. Sanar es algo que hago casi a
diario; me miro al espejo y agradezco por ser lo que soy, por tener lo que tengo. Ahora, más que
nunca, amo mi cabello; lo extraño porque después de todo, en algún momento, la vida nos pasa
factura por todo lo que hicimos o dejamos de hacer. Mi cabello ya no es tan crespo como antes;
que absurdo, ahora deseo tener ese pelo alborotado que parecía esponja, ese que no quería,
ese al que le daba calor y no fraterno. Me pregunto si tal vez los deseos de cambiarlo se están
cumpliendo ahora, después de aceptar y amar lo que soy. El cuerpo tiene memoria, me digo
cada vez que peino mi cabello, agradeciendo y pidiendo perdón por las veces que no acepté su
belleza.
“La lucha continúa”. Una frase que ha estado muy presente en mis últimas experiencias. No
ser esclava de esos ideales que desde niña he escuchado, vivenciado y percibido en muchos
espacios, es sin duda una lucha constante. He decidido ser y hacer porque quiero, porque deseo
darme oportunidades tal vez únicas en la vida y no por el deseo que otros imponen sobre mí,
creyendo que lo que quieren ellos, todo el mundo debe o tiene que quererlo, porque así está
estipulado naturalmente. Estoy construyendo una memoria que siempre me recuerde mis
virtudes, aprendizajes y reivindicaciones, una memoria que evoque cada instante de aceptación,
que reviva todo el tiempo la emoción de sentirse una Afrolina.
Foto: Archivo personal de Carolina Beleño Garcia.
Yo / Eu
Às vezes passo noites sem dormir,
imaginando as coisas que ouvi.
Para que tanto conto
se não sou nenhum encanto?
Enquanto tem gente que é um amor,
outras não são nem flores.
Por onde ando, muitos me conhecem.
Acham até que nem parece,
mas eu sou desse jeito
e também reconheço
que tudo o que eu faço tem um preço
ou até mesmo um desejo
pelo que faço, pelo que vivo.
E muitas vezes me arrisco.
Então, por isso, eu sempre aviso:
que se corra o risco quando faz sentido.
thamy nascimento
Foto: GRIOTS Comunicaciones
& Producciones
Reminiscencia / Reminiscência
En aquella oscuridad llena de voces, recordé quién era.
Navegue en el río de mis recuerdos y todo aquello que
creía olvidado volvió a mí. No bastó creerme fuerte, gotas
de agua ya caían por mi piel, la venda de mis ojos se
humedeció y no pude evitar sentir tu dolor.
Sentir tu presencia me desgarró, pero tu voz de mujer
valiente me recordó que aquel camino amarillo es el
sendero más bello y el olor a tierra mojada, el complemento
de mi inspiración.
¿Cómo no podría recordarte si estás conmigo en el lugar
que menos espero? Sé que tu compañía será eterna al
igual que mi amor, que ha viajado por el mar de la desidia
acompañado de muchos temores, inseguridad y sueños
rotos que se arman con el caudal de mis vivencias.
Así como está, llena de paisajes que parecen metáforas,
de sentimientos incontrolables y el ruido constante de mis
raíces que retumban como cueros en rueda de cumbia al
llegar el amanecer.
En medio de la emoción y la locura floté en la orilla,
recordando tu presencia, la de ella y la de mis ancestras. Y
esa noche serena y luego lluviosa bajo el claro de la luna
en la bahía, besé la brisa fría que contemplaba la tristeza y
melancolía, al saber que se acercaba mi partida.
carolina beleño garcia
Foto: Ana Clara Magalhães
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Cueva /
Caverna
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vin& do beat
Texto: Jonas do Nascimento
“Drogas e Armas” de Vin& Do Beat retrata, de maneira direta
e sem concessões, a realidade nua e crua de muitos jovens
das favelas brasileiras. Entre vícios e virtudes, socialmente
condenados a conviver com a violência urbana e a política de
repressão imposta pelo Estado, se questionam se não será
mais fácil tirarem suas vidas do que cuidarem delas. A música
apresenta uma narrativa forte e desafiadora de um indivíduo
que se encontra envolvido em um mundo de drogas, violência
e crime.
Drogas y armas / Drogas e armas
A letra retrata uma realidade social que muitas vezes é invisibilizada ou romantizada na mídia.
O protagonista da história fala sobre ser “marcado” como inimigo do Estado por conta de
seu envolvimento com “drogas e armas”, sofrendo na pele a sua violenta consequência. A
sensação de marginalização e revolta presente na letra e no videoclipe destaca um cenário de
guerra urbana, longe de soluções a curto prazo.
A letra da canção parece expressar, portanto, a perspectiva de um narrador que se vê como
uma figura marginalizada e perseguida pela sociedade e pelas autoridades. Ele se sente
rotulado como inimigo devido ao conteúdo de suas palavras e seu modo de vida favelado.
Nesse sentido, o forte sentimento de raiva e de desespero toma o primeiro plano em toda a
narrativa. O personagem que ganha vida por meio da interpretação de Vin& Do Beat se sente
traído e oprimido por um sistema que ele considera hipócrita e corrupto.
A menção ao nome “Mari Marighella” sugere uma possível referência a Carlos Marighella, uma
figura histórica no Brasil, que foi guerrilheiro e um dos principais líderes da luta armada contra a
ditadura militar no país. Além disso, parece também querer evocar o nome de Marielle Franco,
ativista favelada que foi brutalmente assassinada em 2018 por conta de suas ações a favor dos
pobres, pretos e periféricos. Tais citações representam uma sensação de resistência contra o
poder estabelecido e a preservação de uma memória de lutas e seus líderes – refazendo-se
em refavelas.
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Video: “Drogas e Armas”
Impotencia / Impotência
Me encuentro en una tarde lluviosa,
sentado en la pequeña cama de mi cuarto,
percibiendo como la depresión aumenta
y me invade el llanto.
Desesperado con ganas de golpear,
pienso y pienso sin poder parar,
a la basura todo tirar o volver a empezar.
Estoy en mi habitación
ahogándome en un mar de lágrimas,
intentando no saturar y perder mi conciencia,
pegándole a todo con mucha fuerza,
para evitar que me domine la maldita impotencia.
Joan Sebastian
Foto: Rodrigo Reffer.
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Mi Favela no es siniestra / Minha Favela não é sinistra
Eu, Taciane Campos Rodrigues, junto com a REPROTAI – Rede de Protagonistas em
Ação de Itapagipe, vamos ecoando as nossas vozes e mostramos que somos a evolução
desse Brasil!
Favela, ê Favela!
Favela, eu sou Favela!
Favela, ê Favela!
Respeite o povo que vem dela!
Ei mano, respeite os nossos corpos de mulheres também.
Favela sinistra de madrugada, filha da puta? Por que sempre elas?
São filhos do sistema assassino de farda.
Se ele vir você, não tente se esconder.
Quem disse que minha favela é sinistra?
Minha favela tem cor, tem vez, tem voz, tem juventudes pretas.
Você vem no capuz, dominando no poder. Se liga aí, meu mano:
eu sou cidadã, igual a você!
Becos e vielas: esse é o nome da minha favela. Respeite o que vem dela!
Desce ladeira abaixo.
É tão transparente que de longe eu vejo o corpo do meu neguinho estirado no chão.
Ihhhh! E das minhas neguinhas também.
Desce ladeira abaixo, que, a cada 23 minutos, eu ouço e vejo, em todo o Brasil,
minhas mães gritando:
“Mataram meu filho! Mataram meu filho! MATARAM MEU FILHO!”
Só porque era negr@!
Até quando, sociedade, as suas balas vão penetrar nossos corpos pretos?
E eu não falo só de morte matada!
Parem de nos matar:
na educação, na saúde, na cultura, entre todos os acessos que nos são negados!
Tacy Campos
Foto: Heder Novaes
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El Río de los
Siete Colores /
O Rio de Sete
Cores
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diego araúja, jaime gómez, matchume zango, candilé, reprotai
A peça teatral “MAFONE – Oríkì da Viagem” é um exemplar da
interseção cultural e artística, incorporando de maneira profunda
e significativa uma perspectiva estético-política e sociológica ao
retratar o intercâmbio entre duas comunidades economicamente
desfavorecidas, uma em Salvador (Brasil) e outra em Cartagena
(Colômbia). Sob a direção de Diego Araúja, a coreografia de
Jaime Gómez e a composição musical de Matchume Zango,
a produção destaca a capacidade da arte de servir como uma
força motriz na construção de pontes entre seres humanos e na
exploração de raízes culturais entrelaçadas numa jornada rica em
simbolismos.
Mafone – Oríkì del Viaje / Mafone – Oríkì da Viagem
A peça conduz o espectador através de uma jornada envolvente que incorpora elementos
culturais, espirituais e históricos. À medida que sua personagem principal passa por diferentes
lugares e vivencia manifestações culturais populares, o público é levado a uma exploração das
diferentes facetas da identidade negra na América Latina. Essa jornada também simboliza a
busca pessoal e a transformação, representando o processo de encontrar algo mais profundo
e significativo do que um simples objeto material.
Exemplificando o conceito de interseccionalidade, Exu (Elegguá) ocupa um papel de destaque
como narrador, facilitando a abertura de caminhos e a comunicação entre os deuses e os
seres humanos. Sua habilidade de transcender a dicotomia entre o bem e o mal ilustra a
complexidade das experiências humanas e espirituais. Com isso, a peça integra elementos da
cultura afro-brasileira e afro-colombiana de maneira autêntica, reconhecendo a importância
dessas influências na construção das identidades culturais das comunidades envolvidas.
A narrativa da mulher em busca de seu “tambor falante” oferece uma interpretação fascinante
do conceito de identidade, exemplificando como as experiências individuais podem se
entrelaçar com as experiências coletivas. Por meio da travessia de diferentes cenários que
evocam as paisagens locais, como a praia e o mercado, a peça destaca o valor das interações
e as transformações pessoal-coletivas que encontram um propósito maior do que a mera
viagem.
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O tambor que muda de tamanho simboliza a expansão da consciência e a conexão entre as
culturas brasileira e colombiana, refletindo a convergência de culturas em uma identidade única.
A peça enfatiza a importância de encontrar significado na jornada da vida e compartilhar as
lições aprendidas com a comunidade, promovendo assim o fortalecimento dos laços sociais.
A dança cabocla, que incorpora influências indígenas e negras, personifica, por sua vez, o
conceito de hibridismos culturais. Além disso, o encontro simboliza a cura e a transformação,
recebendo maletas e bolsas da comunidade para que possa continuar sua jornada com um
fardo mais leve. Isso destaca o poder da solidariedade e a importância da coletividade na
superação de desafios.
“A falta pode ser memória, mas também pode ser presente.” Essa poderosa afirmação inicial
se encaixa perfeitamente na reflexão sobre o intuito da peça teatral e a experiência cultural
e sociológica que ela proporciona. A falta aqui pode ser interpretada como a ausência de
reconhecimento e valorização das comunidades marginalizadas, tanto no contexto brasileiro
quanto colombiano.
Ao abordar o intercâmbio entre essas comunidades, a peça reconhece a falta de visibilidade
dada a essas realidades e culturas, especialmente nas narrativas predominantes. Isso se
alinha com o conceito sociológico de marginalização, que refere-se à exclusão social, política e
cultural. A falta de representação e oportunidades adequadas é, neste sentido, uma forma de
marginalização historicamente imposta e vivenciada por essas comunidades.
A peça, no entanto, oferece uma abordagem positiva para essa “falta”. Ao trazer à tona as histórias,
tradições e a espiritualidade dessas comunidades, ela confronta a falta de reconhecimento,
transformando-a em memória e, mais importante, em uma celebração do presente. Através
da arte, as comunidades encontram uma voz e uma plataforma para compartilhar suas ricas
heranças culturais.
Texto: Jonas do Nascimento
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Esse processo de transformação coletiva e de reivindicação do presente é uma manifestação
do que se chama empoderamento. A peça não apenas lembra as raízes culturais, mas também
capacita as comunidades a se expressarem e a reivindicarem seu lugar na sociedade. A falta,
que anteriormente era um obstáculo, torna-se uma força motriz para ação e mudança.
Além disso, a falta que é transformada em memória e presente torna-se aqui uma ilustração
do conceito de resistência. As comunidades mostram resiliência ao reivindicar sua herança
cultural e ao estabelecer conexões entre seus passados e suas identidades atuais. A falta
inicial de reconhecimento se transforma, em suma, em uma narrativa de força, persistência e
renovação cultural, transfigurando-se desse modo num testemunho da importância da arte na
promoção da justiça e da inclusão sociais.
Video: “MAFONE – Oríkì da Viagem”
Eternizar momentos
A missão foi dada pelo professor
e cumprida de uma forma linda:
registrar, ou melhor,
eternizar as conexões
e tudo que veio a partir daí.
Um dos resultados foi
“Mafone – Oríkì da Viagem”.
Brasil e Colômbia
juntos de novo,
dessa vez no Brasil.
Mas essa conexão
existe há muito mais tempo...
As semelhanças e as diferenças
não foram meras coincidências…
Conhecimentos foram adquiridos,
afetos foram se formando,
memórias se eternizaram,
palavras marcaram.
ana clara magalhães
O poeta é fingidor, dor, dor!3
Foi “professor” pra lá e pra cá.
Palavras foram adicionadas ao
vocabulário
e a viagem foi da Terra do Fogo
até onde mesmo?
Até ôôôô, até ôôôô, até ôôôô,
até o Canadá!4
Os ensaios foram diários,
as oficinas, enriquecedoras.
O cansaço era visível em todos,
mas o objetivo final era muito maior.
Finalmente o espetáculo foi realizado
de maneira linda e potente.
O melhor é que não termina aí.
Isso é só o começo...
E quem registrou se sentiu
totalmente conectada.
3 Utilizei esta referência do texto “Autopsicografia” de Fernando Pessoa, que o poeta e performer soteropolitano Alex
Simões apresentou em uma outra versão no laboratório artístico com Candilé e REPROTAI, e foi marcante para todo o
grupo do intercâmbio.
4 O canto “até ôôôô Canadá” surgiu através da música criada durante os ensaios do intercâmbio e foi apresentado na
mostra artística “Mafone – Oríkì da Viagem”.
Foto: Gabriel Dias
125
La vida es una riqueza / A vida é uma riqueza
Lembrando algo novo,
sentimento mais profundo
que não pode acabar.
Trazendo a esperança
no sorriso de uma criança,
a brincar.
Fazendo a felicidade
sem contar a vaidade,
tira os pés do salto alto.
Fazendo a coreografia,
criando simbologias,
canto alto com emoção.
Pois a vida é uma riqueza
e não pode acabar.
Fazendo a coreografia,
criando simbologias
com meu rap, a solução.
Pois a vida é uma riqueza....
Trazendo rap e desafios,
meu instinto, que eu confio
na mudança: a paz, então.
Man0 Xandã0, Vin& Do Beat
Na canção dos pássaros,
do vento a soprar,
a vida é muito longa
pra quem sabe aproveitar.
Aproveitar a vida
e fazer acontecer
só depende de você dizer:
Eu sou capaz, rapaz,
no mundo jazz.
Da minha vida, cuido eu
porque sou o protagonista.
Objetivo, força e fé,
eu vou a pé
e vou seguindo a minha pista.
Pois a vida é uma riqueza
e não pode acabar.
Só depende de você dizer:
“Eu sou capaz, rapaz, no
mundo jazz!”
Pois a vida é uma riqueza...
Objetivo, força e fé,
eu vou a pé
e vou seguindo a minha trilha.
Foto: Ana Clara Magalhães
127
Ribera /
Ribeira
129
arlenis alvarez pérez, tatiane dos anjos mattos, uadson santana, wilfran ospino
Texto: Diana Mignano
El papel del arte en la construcción de las identidades
individuales y colectivas es el hilo conductor de la producción
audiovisual “La vida como una obra de arte”. En ella, sus
protagonistas parten de la reflexión sobre sus vidas y aquellas
experiencias que han contribuido a forjar su identidad personal
y social como una obra de arte. En este sentido, se apoyan
en la danza y la música como praxis social, en la que les es
posible desplegar su corporeidad y por tanto su identidad.
La vida como una obra de arte / A vida como obra de arte
En esta pieza audiovisual el cuerpo - los cuerpos - entendido como una construcción polifónica,
se resignifica como el fundamento de la identidad del ser humano. Aquí la corporeidad y
la experiencia corporal con sus dimensiones – emocional, social y simbólica – se muestran
como el resultado de la interacción entre el individuo y la sociedad, ya que es precisamente en
esa interacción en la que el cuerpo conscientemente se elabora, se reconstruye y se resignifica.
133
Video: “La vida como una obra de arte”
más allá de los límites: la historia inspiradora de un líder social /
além dos limites: a história inspiradora de um líder social
Miguel Salgado Padilla
Sólo era un adolescente cuando empezaba a tener conciencia de mi realidad familiar y social,
inmersa en la pobreza material que rodeaba mi hogar y mi comunidad. Era un momento de
lucidez y, tal vez, de madurez prematura en el que me detuve a comprender el contexto de mi
vida y a visionar, a lo mejor soñar, cuál podría ser ese futuro ideal que me permitiera vivir en
condiciones dignas, como es lo justo para cualquier ser humano.
La situación socioeconómica de pobreza en mi niñez fue la misma que la de mi adolescencia,
pero en la inocencia propia de la infancia me entretenía con el juego en la calle, con los
amigos y amigas del barrio, con la asistencia a la escuela y la posibilidad de integrarme y
recrearme con los niños del callejón Franco del Pie de la Popa, el barrio de estrato alto en
el que trabajaba mi madre como empleada doméstica. Allí, esos niños y niñas me acogieron
como si fuera parte de ellos, sin rechazo, discriminación, burla, ni “bullying”, para ponerlo en
términos de estos tiempos; éramos iguales y así nos tratábamos. Tampoco puedo decir que
sus padres y madres me estigmatizaron, ni les prohibieron a sus hijos que se juntaran con el
hijo de la empleada de la señora Sixta y el señor Lucho.
No fue nada fácil salir adelante con tantas adversidades y poder hoy contar esta historia.
Me marcaron mucho, la ausencia de afecto y responsabilidad económica de mi padre en la
crianza mía y de mis hermanos, y el ser testigo del maltrato y el abuso de mi papá hacía mi
madre. El ver correr despavorida a mi “mamá Justina” cuando mi padre la amenazaba con un
machete, es una imagen imborrable; y, padecer la mudanza constante hacia donde mi abuela
cuando nos echaban de la casa o cuando había riesgo de violencia física, es algo que a un
niño le deja secuelas, porque no viví en un hogar donde el afecto y el cariño fueran lo normal.
Una vida de vértigo, drama y esfuerzo sobrehumano de mi madre, que fue debilitando su
disfrute por la vida, hasta el día que dijo de manera espontánea e inesperada: “¡Ya no quiero
seguir viviendo!” Una frase fría, triste y muy dolorosa que recibí y me sacó varias lágrimas de
impotencia. Fueron muchos días en los que pasé triste, porque sabía que era la antesala de su
final, su prematura muerte.
Cada día la veía más acabada, cansada, infeliz y con desaliento. Yo la abrazaba mucho, le decía
que la quería, me sentaba en sus piernas, quizás era el que más la mimaba. De hecho, durante
muchos años lloraba sólo con imaginar que se me iba a morir. No aceptaba su muerte, era una
gran pérdida para mí, no sólo una pérdida humana y afectiva, sino un fracaso en el proyecto
de superación, porque concebía que mi sueño de vivir mejor era con ella y para ella. Esa fue
la razón del porqué un día cualquiera, en el que estudiaba en la universidad y empezaba
a trabajar formalmente en las empresas, le informé mi decisión que hasta ese momento
trabajaría en casa de familia; no concebía que ella siguiera rompiéndose el lomo por nosotros.
Era el momento de trabajar para ella y permitirle descansar.
Con el tiempo, el afecto que me negó mi padre lo encontré fuera de mi casa, con mis
amigos y compañeros de los grupos juveniles y culturales en los que me involucré desde
la adolescencia hasta el día de hoy. Con esos grupos realicé experimentos de convivencia
familiar en la idealización de lo que yo creía, debía ser un hogar de pujanza, unidad y mucho
amor compartido.
Todos esos momentos de dificultades de infancia vividos en el seno de mi hogar, algunos
de ellos traumáticos, paradójicamente fueron positivos para mí, porque a diferencia de mis
hermanos, no acepté la condición de vivir en la pobreza. Al contrario, entendí a temprana edad
que la única opción que tenía para superar mi condición y la de mi familia era estudiar, aunque
la condición de esta última, no dependía directamente de mí. Eso lo comprendí un poco
tarde, cuando decidí dejar de asumir los problemas de todos y soltar las responsabilidades
a quien correspondiera, educarme, culminar con éxito cada ciclo de formación y construir un
ser preparado que se abriera paso por sus conocimientos, calidad humana, vocación social
y espíritu de superación. Desde ese momento, no sólo me dediqué a estudiar con ahínco,
sino que me propuse ser uno de los mejores estudiantes, obteniendo reconocimientos, becas,
oportunidades y el respeto de docentes y compañeros de estudio.
Parecía que ir al colegio, y más que eso, terminar los estudios era una decisión individual
de cada uno de mis hermanos, no una exigencia de los padres o el deber ser dentro de la
dinámica de superación familiar. En ese sentido, a los menores entre el grupo de hermanos
nos tocó un poco más complicado, porque todo indicaba que el fracaso académico de los
mayores haría que los demás repitieran la misma historia. De hecho, ingresé por primera
vez a un establecimiento educativo a los siete años de edad, directamente al primer año de
Básica Primaria. No pasé por el ciclo pre-escolar, ni siquiera me matricularon en los colegios
de “banquillo” del barrio, muy característicos en esa época de mi infancia, siendo estos lugares
de educación informal donde un maestro o una maestra, una persona, normalmente, empírica,
pero con una pasión y compromiso social para enseñar los primeros trazos de educación
(lectura y matemática básica) a los niños y niñas de la comunidad, emplea su casa y cobra un
costo simbólico por el servicio prestado.
135
No tuve una fase previa de educación antes de ingresar a la Educación Primaria, por lo que,
como era de esperarse, reprobé el primer año escolar. No aprendí a leer y a escribir lo suficiente
y, en general, no logré adquirir las competencias que se exigían para ser promovido el grado
siguiente. ¿Y cómo las iba a adquirir, si no tuve una formación preescolar, ni la tutoría de mis
hermanos para reforzar las enseñanzas de la Escuela? Sólo contaba con el apoyo moral de mi
madre, a quien su analfabetismo y otras ocupaciones de la crianza le imposibilitaba ayudarme
en lo académico. No hubo otra alternativa que repetir el primero de Primaria.
Mi primera escuela fue Antonia Santos, una de las instituciones de educación pública más
cercanas al barrio, sobre todo cercana al Pie de la Popa, donde laboraba mi madre porque estaba
ubicado a unos minutos de distancia. Allí también estudiaron la mayoría de mis hermanos y
muchos de mis amigos y amigas del barrio. Luego, por una fusión que hubo, pasé a estudiar
a la Concentración Educativa Fernández Baena (CEFEBA), donde terminé la Primaria e hice
toda la Básica Secundaria y Media Técnica. Fue en esta última institución donde me gradué
de bachiller y viví mis mejores momentos de estudiante, donde pude proyectarme como uno
de los mejores estudiantes. Conocí a mis primeros mejores amigos y amigas, y senté las bases
para mi formación profesional hasta el día de hoy.
Mis amigos del colegio, me distinguían como un joven igual que ellos, nacido y criado en
barrios extramurales, a los que la educación pública los acogía y formaba. A algunos les daba
la impresión de que yo estaba muy seguro para qué estaba destinado o que sabía qué quería
ser, por mi carisma y mi personalidad. Pocas veces me veían de mal humor y con un dejo de
tristeza; casi siempre andaba sonriente, ecuánime y diplomático.
El Fernández Baena era un colegio grande, con muchos espacios (aulas, biblioteca, laboratorio,
sala de profesores, salones, cancha de fútbol y oficinas). En esa época, bien podría considerarse
como un megacolegio, por la infraestructura, la cantidad de estudiantes y docentes. Tenía tres
jornadas: mañana, tarde y noche; dos rectores, con una especialidad en la mañana porque en
esa jornada funcionaba como colegio normalista, es decir, la modalidad donde los estudiantes
enfocaban su preparación a ser educadores de primera infancia, servicio que posteriormente
lo separarían del CEFEBA creando una institución propia para tal fin, denominada la Normal
Piloto.
El colegio era uno de mis lugares favoritos, porque me hacía feliz aprender cosas, encontrarme
con mis amigos, y porque me ocupaba en actividades que me distraían por ratos de los
conflictos familiares. Allí conocí grandes maestros y descubrí las asignaturas que me ayudaron
a potenciar mi fortaleza académica, siendo las ciencias sociales y las matemáticas las materias
preferidas y con las que mejor me desempeñaba en el estudio y obtenía los mejores resultados
académicos. En especial las matemáticas, porque supe que era muy bueno en esta ciencia y me
destaqué mucho, bajo la enseñanza del profesor Gilberto López, a quién apodaban “el Máster”,
porque era considerado una autoridad, tal vez el docente más preparado académicamente en
su área. Sus clases eran todo un acontecimiento de disciplina, por el silencio y el orden de los
estudiantes; por las tareas, los llamados al tablero, la participación en clases, los exámenes, su
personalidad con sabiduría profunda, siempre serio, con una metodología magistral y clara para
mí. Así mismo, él era la pesadilla para los que no les gustaban las matemáticas o tenían bajo
rendimiento. Era el profesor más exigente que te podía ridiculizar en público si no estudiabas
o no presentabas los trabajos, pero también, era el que te ponía una buena nota por participar
en clase, te exaltaba cuando lograbas resolver un problema o una ecuación difícil, y cuando
sacabas las máximas notas de las pruebas que realizaba.
Las matemáticas me marcaron tanto, que decidí estudiar la Modalidad de Contabilidad en
la Media Técnica, que se cursa en los grados décimo y undécimo al final del Bachillerato. La
contabilidad me despertó el deseo firme de estudiar Contaduría Pública, mi primera decisión
de carrera profesional, la que luego cambié por la Administración cuando, casualmente, la
profesora de Contabilidad me prestó unos libros de Administración que leí y reorientaron mi
vocación profesional de manera definitiva y dando paso a mis estudios en Administración
para el Desarrollo Regional, en la Universidad Tecnológica de Bolívar.
Al tiempo que me entregaba al estudio con dedicación, disciplina y, sobretodo, con convicción,
me abrí camino al trabajo social como líder juvenil con lo que desarrollé la gestión comunitaria,
porque descubrí que me apasionaba trabajar con otros en lo social y lo disfrutaba mucho; y,
desperté ese liderazgo que llevaba por dentro. Desde los catorce años empecé a ser parte
de grupos juveniles y a perfilarme como un líder entregado a las causas sociales. Comencé
a ser parte de la historia de progreso de muchas comunidades, en especial, la del Barrio
Chino, la comunidad donde nací y he desarrollado mi escuela de liderazgo y los laboratorios
sociales, juveniles y culturales que, hoy por hoy, son el legado de más de tres décadas de
trabajo comunitario.
En la década de los ochenta, quizás, era un joven atípico, estudioso y dedicado a muchas
iniciativas de desarrollo social y juvenil - más entregado a esas iniciativas que a consumir
alcohol o drogas tal como lo hacían algunos de mis amigos contemporáneos. Al contrario, lo
que hacía en lo social tenía un gran componente de prevención a esos flagelos problemáticos
de los sectores populares. No obstante, la realidad cruda del Barrio Chino era que tenía y tiene
muchos riesgos de descomposición social por su cercanía con el Mercado de Bazurto y la
zona comercial más densa de la ciudad, donde pululan el microtráfico, el consumo de drogas,
la prostitución y la delincuencia común, sumado a las afectaciones de la contaminación
ambiental, el uso arbitrario del espacio público, los habitantes de calle y la anegación de las
calles por el agua de la Ciénaga de las Quintas, entre otras problemáticas.
137
No es fácil vivir, resistir y mantenerse en una comunidad a la que histórica y sistemáticamente
los gobiernos de turno le han negado casi todo para convivir en condiciones dignas, dado
que la han desestimado con la baja inversión de recursos para su infraestructura y desarrollo
social. No se ha dado nunca para el Barrio Chino una atención significativa que mitigue el
daño del impacto social y ambiental de haberle construido una central de abastos al lado del
barrio, sin consulta previa. Para decirlo más claro, el Distrito de Cartagena no ha asumido su
responsabilidad social e institucional con una comunidad que se afectó negativamente con
las decisiones que tomó en su momento.
No ha sido fácil quedarse en un barrio que no tiene una escuela en excelentes condiciones; no
tiene escenarios deportivos, parques, sendero peatonal en la bahía, biblioteca pública, salón
comunal, casa de la cultura, centro de salud, ni puesto de Policía para el control y la seguridad,
entre otros espacios de equipamiento social. Aún así, esta ausencia de infraestructura no ha sido
un obstáculo para que los líderes seamos creativos, emprendedores, gestores con capacidades
y exigibilidad de derechos ante los entes gubernamentales y organizaciones privadas. Con ese
nivel de liderazgo del que soy parte, logramos hace más de 30 años, instalar por autogestión
la red de alcantarillado y la pavimentación de la mayoría de las calles, y comprometer a las
empresas de servicios públicos y al Distrito con mejorar el servicio de acueducto y energía, y
la instalación del gas natural. Pero más allá de la infraestructura, el principal logro del liderazgo
social es el desarrollo social y humano de decenas de niños, niñas y jóvenes que, por más de
tres décadas, han crecido en valores, formación y sana convivencia.
Los logros de infraestructura no eran para mí el principal objetivo, porque desde muy joven
comprendí que la clave estaba en centrarnos en el desarrollo humano, en el ser, en la educación,
en fortalecer sus capacidades y potencialidades, lo que, en consecuencia, me perfiló como
líder social y cultural con muchas iniciativas de grupos, colectivos, proyectos, estrategias y
experiencias significativas de trabajo comunitario. Ser el fundador de grupos juveniles, el
Comité Pro-Juventud, el Comité Pro-Desarrollo y Candilé, entre otros procesos que lideré
como la Cooperativa Coopadblock y la Junta de Acción Comunal, me potenció como uno de
los líderes más entregados y comprometidos, con toda una vida de trabajo por el Barrio Chino
y otras comunidades, formándome, aprendiendo, experimentando, llevando alegría a muchas
personas y aportando al desarrollo de las comunidades.
Justamente, priorizar la dimensión humana me ayudó a enfocar el trabajo en niños, niñas,
adolescentes y jóvenes. Después de muchas iniciativas, podemos decir que hemos construido
un barrio con potencia social y cultural, siendo la cultura y el deporte nuestra principal
estrategia de resistencia para no ser expulsados y expropiados de nuestro territorio por el
interés insaciable del comercio avasallador y los proyectos de desarrollo urbanístico que nos
vienen asfixiando y comprando predios para construcción de almacenes y bodegas, sin límites
ni control institucional, siendo todavía un sector residencial.
Cabe mencionar que el impacto de trabajo social en el Barrio Chino, por su misma fuerza
trascendió a otras comunidades - inicialmente, a través de los proyectos de ciudad ejecutados
por la Corporación Cultural Candilé, y luego por mi desempeño profesional, que me llevaron
a ser lo que soy hoy: un gestor social y cultural de Cartagena y la región, con muchos
reconocimientos públicos a mi labor de muchos años.
Mi historia de superación, precisamente, tiene esos dos pilares: la educación, y el trabajo social
y comunitario. Ha sido un camino con muchos obstáculos en su recorrido, porque no ha sido
nada fácil; más fácil es contar la historia que vivirla. En ese largo camino, pude ser el núcleo
de mi familia, y lo digo con mucha timidez, el primer bachiller, el primer profesional con título
de pregrado, el primer magíster, el primero en ocupar cargos de dirección en importantes
entidades públicas y privadas, y el primero en ser un personaje público del desarrollo social, el
folclor y la cultura en Cartagena. Todos estos logros, al contrario de generar en mí un orgullo y
crecer mi ego y vanidad, me generaron tristeza en muchos momentos de mi vida, porque no
pude convencer a mis padres que aprendieran a leer y a escribir, porque no pude convencer
a mis hermanos a que terminaran, al menos, sus estudios de secundaria, y porque algunos
de mis familiares decidieron quedarse en las mismas condiciones de pobreza con las que
nacimos.
La formación y los diplomas que he obtenido hasta ahora pueden ser propósitos pequeños
y básicos para una persona de clase media, o que viva en el contexto de un país desarrollado.
Pero dado las condiciones de mi familia, mi curso de vida y el contexto de pobreza de mi barrio
y de Cartagena, se convierten para mí en objetivos de gran valor, porque produje, directa o
indirectamente, un cambio generacional en mi familia con mi modelo. Abrí el camino para que
mis sobrinos tomaran el camino de la educación superior, se motivaran y entendieran que sí es
posible cambiar una situación de insuficiencia de recursos, por un bienestar construido desde
la educación, y aunque eso no garantice un “gran empleo”, se tienen mejores posibilidades de
que suceda.
Dentro de esos episodios de superación que han marcado mi vida, recuerdo el día de mi
grado de bachiller, la alegría de mi madre, quien desde la mañana de ese 28 de diciembre,
mismo día de mi cumpleaños – porque el destino me regaló esa dicha de celebrar el acto de
graduación el mismo día de mi aniversario de cumpleaños – mostraba en su semblante que
estaba muy emocionada por la doble celebración. Era de pocas palabras. Probablemente los
sufrimientos de su vida le apagaron la expresión de sus sentimientos, y nunca la reproché por
eso porque teníamos unos códigos de comunicación e intercambio de afecto con los que nos
expresábamos el amor que nos sentíamos, como el abrazo y la cargada en sus piernas, por
ejemplo; eso y el beso que le daba casi a diario, era para mí suficiente.
139
Se levantó de madrugada, como de costumbre, comprometida a que todo saliera bien. Era el
día del gran acontecimiento: por fin, uno de sus hijos sería bachiller. En esa época, era algo
muy significativo porque en los círculos de extrema pobreza de las comunidades barriales y
rurales era una hazaña ser bachiller, y suponía que con el solo diploma accederás a una mejor
condición de vida, a entrar a una empresa y podrías caminar con la frente en alto diciéndole
a la sociedad que eras una persona con educación. Pues bien, ella sabía que era un gran
momento por lo que se arregló el cabello y las uñas, y alistó el vestido que se le compró. Nunca
la vi tan hermosa, no era para menos: iba a ir al acto de graduación conmigo, nada más y
nada menos que al Centro de Convenciones de Cartagena de Indias, que en los años ochenta
y noventa era uno de los mejores centros de eventos de la ciudad y contaba con modernos
escenarios. Graduarse allí daba “caché”. Ahí estuvo mi madre sentada, con orgullo y dignidad
acompañando a su hijo.
Desde que llegamos, ella estaba un poco sorprendida por la afabilidad de mis compañeros
del curso, y el cariño que me expresaron con solo el abrazo y estrechón de manos que nos
dimos en el emotivo saludo de llegada al lugar, y a quienes les presenté. Escribiendo esto,
intuyo que todo lo que sucedió estuviera arreglado para que ella viviera una gran experiencia
de felicidad y orgullo, porque en el acto, el grupo de música que amenizaba, me cantó el “Feliz
cumpleaños” ante todo el auditorio, me otorgaron un reconocimiento por mi rendimiento
académico, y finalmente, me entregaron el “cartón de bachiller”, como coloquialmente se dice.
En esos instantes, yo no estaba al lado de ella, pero podía ver desde lejos que estaba contenta,
y no dudo que haya arrojado algunas lágrimas de emoción, porque así éramos en la familia:
llorábamos por dolor y por alegría.
Sin duda, mi graduación no era sólo el acontecimiento de la Familia Salgado Padilla, sino
también del Barrio Chino, porque me querían mucho las señoras mayores de mi calle, los
amigos y amigas de crianza y de los grupos juveniles y culturales con los que trabajamos
por la comunidad, y los otros líderes del barrio. Todos ellos fueron testigo de mi lucha de
superación incansable, imparable y con mucho sacrificio. Por tanto, todos, de una manera u
otra, también celebraron el logro de cerrar con la graduación este ciclo de mi formación, lo que
se convertiría, de allí en adelante, en la plataforma para mi desarrollo profesional. De tal modo,
una vez salimos del Centro de Convenciones, nos fuimos a la fiesta de grado organizada en
el Club Social del Bony, un estadero grande que fungía como salón de eventos y quedaba
al interior del Barrio Chino. Fueron muchas personas entre amigos, amigas y vecinos y, por
supuesto, mi familia. Mi madre se lució con la comida y los aperitivos, tocó el grupo de gaita
del barrio al que yo también pertenecía, y pasamos un día inolvidable, con una celebración
humilde pero llena de muchas emociones encontradas.
Estudiar siempre fue algo
muy especial para mí, porque
todos los años que estudié
Primaria y Bachillerato, le
llevaba a mi mamá, con
júbilo, el diploma del año que
ganaba. Lo hacía por ella, por
mí, por mis hermanos, por mi
gente; era un ritual todos los
años de celebrar el logro de
una meta y la motivación para
continuar con el siguiente
paso, porque siempre soñé
con ser un profesional, vivir
con las cosas necesarias y
sacar a mi madre de su trabajo
de empleada doméstica, lo
que, afortunadamente, pude
conseguir. Pero el destino
no me dio la oportunidad de
tenerla más tiempo con vida
y poder darle las condiciones
de dignidad que siempre se
mereció.
Foto: archivo personal de
miguel salgado padilla
141
arlenis alvarez pérez
¿Qué culpa tiene la vida de los duros momentos que pasamos?
La vida hay que vivirla y luchar día tras día.
Debemos ser capaces de aguantar por muy dura que sea la situación.
¿Qué culpa tiene la vida de los duros momentos que pasamos?
Hoy aquí sentada en mi cuarto, sumergida en mis problemas, sufriendo por todo lo que me pasa,
y en los dolores tan duros que hay en mi corazón.
Viva por fuera, muerta por dentro. Pero sigo aquí luchando y guerreándola por mi hijo,
por mi familia y por mis buenas amistades consejeras.
¿Qué culpa tiene la vida de los duros momentos que pasamos?
La vida es dura, sí. Pero hay que saberla enfrentar. No podemos ahogarnos en los problemas ni
darnos por vencidos. La vida está llena de muchas cosas buenas, no solo es lo malo.
No es solo vivir por vivirla, sino saberla vivir.
¿Qué culpa tiene la vida de los duros momentos que pasamos?
La vida me dio la oportunidad de pertenecer a mi familia Candilé, donde además de bailar,
compartimos muchas cosas buenas que me han fortalecido como persona.
La vida también me dio la oportunidad de ejercer mi carrera como maestra de preescolar,
donde enseño con amor, paciencia y dedicación.
¿Qué culpa tiene la vida de los duros momentos que pasamos?
La vida gira y tiene cambios que uno no esperaba. Pero hay que luchar por enfrentar tus problemas,
miedos, metas y sueños. Por eso, vive el día a día como si fuera el último. ¡No te des por vencido!
¡Saca el artista que llevas dentro! / Revele o artista que há em você!
Foto: GRIOTS Comunicaciones & Producciones
143
Oleada /
Enxurrada
145
Felix Salgado, Man0 Xandã0, Vin& Do Beat
A primeira impressão que se destaca é a fusão de línguas, culturas e vivências urbanas. A
alternância entre o português e o espanhol na letra da música cria, todavia, uma atmosfera de
unidade na diversidade, enfatizando a força da música como uma linguagem universal que
pode transcender as barreiras linguísticas.
A associação entre letra, beat e imagens busca reforçar a expressão artística e a valorização
dessas diferentes experiências e raízes. Há uma ênfase, pode-se dizer, na importância do
encontro artístico como uma ferramenta para contar histórias autênticas, ainda que similares. A
referência à “vivência, esquinas, poemas” sugere uma narrativa que é enraizada nas experiências
reais do cotidiano de suas comunidades.
A mensagem de união e gratidão também é uma parte central do videoclipe. Agradecer a
todas as mulheres que “chegaram pra somar” e também mencionar que as favelas são um
lugar de “puro lazer”, quando unidas, destaca a importância da solidariedade e do apoio mútuo
em comunidades frequentemente marginalizadas.
No entanto, a letra da música também aborda desafios e adversidades. Há referências à falta de
alguns valores e à presença de diversos obstáculos. O verso “me faltam valores”, por exemplo,
parece sugerir uma luta interior e a busca por um sentido mais profundo na vida. Isso, por
conseguinte, adiciona complexidade à música, mostrando que, apesar da alegria e da união
celebradas, ainda existem desafios a serem superados.
Estamos Juntxs
149
Texto: Jonas do Nascimento
A canção “Estamos Juntxs”, interpretada por Felix Salgado,
Man0 Xandã0 e Vin& Do Beat, narra o encontro de duas
comunidades periféricas, Uruguai em Salvador da Bahia
(Brasil) e Barrio Chino em Cartagena de Indias (Colômbia).
Essa conexão geográfica e cultural se reflete nas letras da
música, que alternam entre o português e o espanhol, bem
como nas referências às realidades desses locais.
A canção, ainda assim, se destaca por sua energia e otimismo. A batida e a melodia são
cativantes, e a entrega dos artistas é enérgica, o que contribui para a sensação de celebração e
positividade do início ao fim. Em suma, “Estamos Juntxs” destaca e celebra a força da música
como uma língua universal, ao mesmo tempo em que aborda desafios e a importância da
solidariedade e do intercâmbio entre os povos do Pacífico ao Atlântico, “da Terra do Fogo até
o Canadá”.
Video: “Estamos Juntxs”
Mi secreto / Meu Segredo
man0 xandã0, vin& do beat
É engraçado o que, na vida, a gente tem que escutar.
Eu sei que é difícil, mas você tem que tentar.
Diante de trabalhos, se dispõe a construir.
Eu sei que a vida é injusta, mas nunca vou desistir.
Tá ligado nesse verbo, eu tô falando é de uma REDE.
Só tem sangue na veia quem tem fome e quem tem sede,
sede de vontade e de colher informação.
Pode vir participar, mas olha só, não se engane, não.
Estudar é uma forma. Pode vir, não tenha medo.
Entrou por essa porta descobrindo o meu segredo.
Tem gente lá na rua que é muito curioso,
a Rede REPROTAI já tá na boca do povo.
Pode vir se expressar, pode vir dar sua palavra,
Evolução MC’s mostrando a sua casa.
Ei, moleque, saia da rua,
venha fazer parte porque a vida continua.
Ei, menina, não tenha medo.
Se você não se importar, eu vou te contar o meu segredo.
Aqui no rap te mando um recado: peça força a Deus,
seja educado: diga muito obrigado.
Obrigado, meu Senhor, por mais um dia
fazendo mais projetos, correndo e implantando na periferia.
Ei, moleque, saia da rua.
Venha fazer parte porque a vida continua.
Ei, menina, não tenha medo.
Se você não se importar, eu vou te contar o meu segredo.
Ei, testando o meu som, fazendo atividades, pro meu rap ficar bom.
E a Rede REPROTAI me mostrou o caminho
fazendo o meu rap, com meus amigos não fico sozinho.
Pow, caray, também não dê mais essa,
já dei minha palavra, agora deixe de conversa.
Foto: GRIOTS Comunicaciones & Producciones
151
Seguiremos
Man0 Xandã0
Seguiremos em bando,
entoando canções em Iorubá
com versos nos fortificando,
dançando em levada Ijexá.
Trazendo legados, batalhas,
marcando o chão deste século,
mostrando o brilho do negro,
nas folhas, o santo remédio.
Num galho de arruda, a força
emanando energias positivas.
No pescoço nem mais uma força,
enraizando as nossas conquistas.
Os que foram daqui pro Orúm
nas batalhas são os aliados.
O que nos pertence,
nós conquistaremos.
Traremos de volta conquista, legados.
A bênção, mamãe e papai.
Precisamos seguir adiante.
O bando pisando assim vai
demarcando sem passos errantes.
As costas arderam em senzalas
e no velho tronco de pau,
correntes que pesaram tanto
que até mesmo passamos mal.
153
Hoje o racismo é perverso.
Nos mata que nem percebemos.
Logo o negro, o centro do universo.
Quando vemos, só ficam lamentos.
Nas rodas de capoeira,
os versos em ladainha.
O berimbau deu tom avisando:
Vem chegando a cavalaria!
Angola e Ketu que fala,
girando com a gíria a girar.
Sonhando com os nossos erês,
bailando livres a voar.
Duvidam da nossa potência,
inteligência, poderes, enfim.
Querendo trazer penitência,
esquecem: o começo é no fim.
Negros e negras que fazem valer
a luta ancestral milenar.
Pra que o universo precise entender:
Negro tem valor e o seu lugar.
Nossa pele tem a cor da noite
que o bronze esculturou.
Cada gota de sangue no açoite
e os seus filhos Nanã carregou.
Foto: Ana Clara Magalhães
Remolino /
Redemoinho
155
O documentário narra a parceria e o encontro dos projetos sociais REPROTAI (Brasil) e Candilé
(Colômbia), ambos coletivos comunitários dedicados à promoção da memória, educação e
do empoderamento das comunidades negras em Cartagena e Salvador. Essa colaboração
evidencia a solidariedade entre grupos diversos que compartilham o propósito de recuperar e
fortalecer a herança ancestral afro-brasileira e colombiana. O projeto se destaca especialmente
pela sua abordagem genuína e impactante das questões de identidade, história e cultura,
oferecendo aos jovens participantes a oportunidade de reconectar-se com suas raízes africanas
e compartilhar suas vivências em um contexto de relevância histórica.
A gastronomia, a diversidade de estilos de dança, movimentos, sons e percussão revelam
a riqueza da cultura afro-latina e proporcionam uma eficaz maneira de (re)descobrir essa
herança significativa. As oficinas artísticas oferecem, assim, uma plataforma para que os jovens
expressem sua criatividade e compartilhem suas vivências, realçando o valor da arte e da
cultura como uma ferramenta de empoderamento social. No cerne do projeto, encontra-se a
filosofia quilombola da cooperação, que promove o fortalecimento das comunidades por meio
do trabalho conjunto e da preservação de suas tradições culturais.
MemoriAmefricana – Cartagena de Indias / Salvador da Bahia
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documental / documentário – Gabriel Dias
Resumidamente, “MemoriAmefricana: Cartagena de Indias/Salvador da Bahia” é uma valiosa
pesquisa intercultural que busca fomentar a compreensão, o diálogo, o empoderamento
e a cooperação, destacando a importância de explorar e celebrar nossa herança africana
compartilhada por meio da solidariedade social e artística.
Texto: Jonas do Nascimento
“MemoriAmefricana: Cartagena de Indias/Salvador da
Bahia” é um projeto inovador e impactante que registra
a manifestação de um profundo vínculo entre grupos
historicamente marginalizados em duas distintas cidades sul-
americanas: a juventude negra de Cartagena, na Colômbia, e
Salvador da Bahia, no Brasil. Ambas as localidades partilham
uma história de escravidão que deixou marcas inapagáveis
em suas sociedades. Este intercâmbio tem como objetivo
explorar e celebrar essas raízes comuns nos dois países
latino-americanos, além de abordar questões de resistência
e representação.
Video: “MemoriAmefricana – Cartagena de Indias / Salvador da Bahia”
Vueltas / Voltas
felix salgado
La vida te dará vueltas, vueltas y más vueltas.
No haré nada cuando estén dando vueltas.
Dale la mano y estabiliza a tu prójimo,
tu vida también dará vueltas.
Haz parte de la historia de los demás,
vive la historia de tu alrededor
y te preguntarán: ¿Por qué lo haces?
Yo diré: La vida es como un carrusel,
no sabrás cuándo parará de dar vueltas.
La vida es como el carrusel.
La vida es como el carrusel.
Vueltas y vueltas como el carrusel.
Así es la vida.
Foto: Gabriel Dias
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Linda Realidade
carlos henrique anjos da silva
Vou te contar um segredo,
uma coisa que eu sei.
Ainda não confessei,
mas no momento contarei.
Desde o nascimento, sabia olhar,
mesmo sendo criança, acreditar.
O que importa é evoluir
para que a glória possa surgir.
Mesmo que erre, nunca desista.
Se o primeiro não bastar,
o segundo terá sucesso.
E se esse não for correto,
o terceiro é incerto.
Só no quarto terá sucesso.
Na sociedade,
há liberdade,
pessoas que ajudam
por boa vontade.
Vocês sempre lembram de todos,
mas que linda realidade.
Foto: Carlos Henrique Anjos da Silva
163
Desembocadura /
Foz
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victoria “la gallega” castillo
Além disso, a canção incorpora palavras em swahili, português e espanhol, adicionando uma
dimensão multicultural à narrativa. A palavra “mazuri” (que define a água como “boa, linda” em
swahili) enfatiza a positividade e a beleza desse ciclo da água, sugerindo que a volta da água
para o mar é algo bom e necessário para a harmonia da vida na terra. “Água Doce”, portanto,
nos convida a refletir sobre a importância da água e sua relação com a nossa própria existência.
A música cria uma atmosfera meditativa por meio de uma jornada espiritual.
Nessa teia de significados, outros elementos como a dança e a flor helicônia, com suas cores
vibrantes e sua aparência exótica, reforçam a conexão entre a água, a natureza e a cultura. Pois,
ao incorporar o baile chacarera em seus movimentos, La Gallega está incluindo elementos da
cultura argentina em sua composição. Isso não apenas adiciona uma dimensão transcultural à
performance, como também evoca uma sensação de conexão com as tradições rurais de seu
país de origem. A presença desse ritmo na música ajuda a criar uma atmosfera que combina
com o tema da natureza, tornando a experiência auditiva e visual ainda mais polissêmica e
envolvente.
Agua Dulce / Água Doce
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Texto: Jonas do Nascimento
“Água Doce” é uma canção que nos envolve em uma jornada
lírica, através de palavras, sons e imagens sobre a relação
entre a água e a terra. Interpretada por Victoria “La Gallega”,
a música revela uma atmosfera etérea e espiritual que se
manifesta através de sua simplicidade cativante. A canção
começa com uma repetição insistente de “ter a mais a falar” e
“venha mais a falar”, sugerindo a sensação de ter muito a dizer,
de querer ouvir mais, de desejar aprender e compartilhar mais
sobre a “terra mãe”. A reiteração dessas palavras evoca um
senso de busca constante por conhecimento e conexão com a
terra, transmitindo uma sensação de inquietude e curiosidade.
A frase “Água doce volta para o mar” é o núcleo da música e se
repete ao longo da canção como um mantra. Essa imaginação
poética parece querer ecoar a ciclicidade da vida, onde a água
doce flui de volta para o mar, simbolizando um ciclo infinito de
renovação e transformação. A repetição desse verso reforça a
ideia de que a água é um elemento essencial que liga todas
as coisas na natureza.
Video: “Água Doce”
Melissa Salgado
Somos vulnerables cuando no tenemos la capacidad de dimensionar las cosas. Hubiese
querido ser una mujer (o más bien una niña) con un poco de carácter once años atrás. Y sí,
seguramente sufrí una compleja etapa de aceptación y comparación constante, sobre todo
en un mundo que va creando estereotipos, haciendo a un lado a las personas que están por
fuera de ello. “Tú eres mucho más oscura que yo, no ando con niñas como tú”. Comentarios
como esos ya hacían parte de mi diario vivir, y hacerme a un lado sin decir nada siempre
era mi mejor opción. Le comunicaba a mi madre lo que sucedía, ella siempre fue mi lugar
seguro. Recuerdo que sus palabras alguna vez fueron: “Tú eres hermosa, no le des atención
a eso y que no te importe lo que dicen los demás. Si te pasa algo, házmelo saber y yo iré
directamente a solucionar esto.” Sentía su respaldo, pero ella hacía hasta donde podía, y aún
así, seguía sintiendo ese rechazo por parte de mis compañeras cuando mi única intención
era jugar.
A esa edad de siete años, comienza una serie de inseguridades que hasta hace poco pude
conocer, y que con el tiempo lamentablemente se fueron sumando y haciendo más notorias
dentro de mi personalidad. Me preguntaba si yo estaba mal, si no encajaba, si era diferente,
si sólo me pasaba a mí, si tenía amigos, si era linda o fea.
No me sentía a gusto con mi color de piel, y ni hablar de mi cabello encogido sin hebras lisas
y largas. Algunas veces despeinada, ciertos peinados que me hacían no me gustaban, pero
amaba el hecho de que mi madre lo hiciera todas las mañanas. Claramente nuestra libertad
emocional depende de muchos aspectos que quizás no podemos controlar. Enfrentar a una
sociedad suele ser una tarea difícil, y creemos que tenemos todo bajo control hasta que nos
enfrentamos con cada situación.
Viví en un barrio llamado San Francisco; allí estuve parte de mi infancia junto a mis familiares
más cercanos: mi mamá, mi abuela, mi tía y otras personas. Ese lugar donde habitaba la
alegría antes que el peligro, donde podía durar horas y horas jugando sin parar, ese descanso
después de una jornada escolar. Sabía que, aunque fuera la misma rutina todos los días, yo
era una niña feliz. No me hacía falta nada, ni siquiera el abrazo de papá los fines de semana.
Extraño sentir el olor a coco que traía mi abuelo Antonio luego del trabajo, acompañado
de un abrazo y dos mil pesos colombianos que nunca faltaban para comprar un helado. Mi
abuela Nancy también es una de las personas más importantes, compartimos la mayor
parte del tiempo. Sin saberlo imitaba sus ocurrencias, me ponía sus turbantes coloridos, y
ciertamente mi mamá decía que salí a ella; por eso me gusta lo “extravagante”. De saber que
eso iba a cambiar tan significativamente, hubiese apreciado un poco más esos pequeños,
pero grandes momentos.
desahogo: una mirada hacia mi realidad/
alívio: um olhar para minha realidade
En mi vida siempre fueron mi papá y mi mamá, así, por separado. Suena complicado, pero
siendo sincera, no tengo muchos recuerdos de esa época en la que me tocó asimilarlo, estar
en una casa e intentar sentirse bien en otra. Lo más difícil para mí era saber que mi mamá
se culpaba por las cosas que ella no pudo hacer para que mi realidad fuese distinta. Pero no
tiene la culpa, nadie la tiene. Para mí, es algo que Dios quiso en su voluntad y aun así en mi
memoria predominan más los momentos buenos, compartiendo con ambos sin problema
alguno.
El amor de mi padre nunca me ha faltado hasta el día de hoy, y aunque la vida suele ponerse
dura, tengo su respaldo pase lo que pase. Supe que tuve una madrastra y luego un hermano,
me acostumbré y entendí que mi papá tenía su vida, no muy separada de la mía.
Fui privilegiada, tuve el apoyo de mi familia cada vez que quería realizar alguna actividad.
Eso me ayudó a desarrollar capacidades y aptitudes personales, a trabajar ese carácter que
antes me hacía falta, a saber de que soy capaz de hacer todo lo que me proponga, a confiar
en mí, a equivocarme, a empezar de cero o cerrar ciclos.
Con el pasar de los años, fui cambiando mi manera de pensar, comprendí que no debo
agradar a alguien para sentirme bien, y que mi felicidad depende de mí misma. Los quince
años, una etapa complicada, de rebeldía, de decisiones que determinarán tu futuro a mediano
plazo, donde juegan un papel fundamental las emociones, los sentimientos, las relaciones
personales, los estudios y las prioridades que tenga cualquier joven de esa edad. Mi vida
se iba tornando un poco gris. Lógicamente, yo iba cambiando con el tiempo, pero muchas
veces no estaba orgullosa de quién era, me convertí en una persona amargada y enojada.
Enmendar esos errores ha tenido un trabajo, fueron las circunstancias que me afectaron
grandemente.
Empezar nuevos procesos y conocer a nuevas personas fue parte de mi desarrollo. En el
2016 inició otra etapa, en la que conocí la danza más a fondo y pude tener otros enfoques.
Fue una de las más constructivas de mi vida a nivel personal, pero también de las más
difíciles. Hice amigos, que aún siguen aquí conmigo, pero también me alejé de personas que
me lastimaron y que gracias a Dios, ya no están, pero que recuerdo con un poco de amor.
Mi cuerpo fue cambiando, mi círculo social también, los intereses eran distintos; la danza llegó
y se volvió uno de los ejes de mi vida desde el momento en que me di cuenta que es una de las
habilidades que podía explotar de la mejor manera y que, a su vez, me ayudaba a despejarme
de ciertos problemas. No era la mejor, tal vez aún no lo soy, pero de algo sí estoy segura, y es
que la dedicación y la constancia que he logrado, han hecho de mí una persona diferente. Y
no, no me las sé todas, sigo aprendiendo, pero lo gratificante es que me disfruto el proceso.
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Aquí sigo trabajando en mí, alimentando mis conocimientos artísticos y personales,
volviéndome a levantar una y otra vez, intentando comenzar todo con el pie derecho,
demostrando que soy más que lo que pueden suponer los demás de mí.
Mi enfoque tomó un rumbo distinto, la prioridad ahora soy yo, y aunque me ha costado un
poco, sé que he podido superar, sanar y olvidar las heridas que tenía cicatrizadas. El amor
propio suele ser un tema muy tocado y aburrido, pero que, en esta historia, mi historia, tiene
relevancia. He aprendido a sobrepasar algunos límites que creía no poder alcanzar. Intento
ser un modelo a seguir para mis tres hermanos y un orgullo para mis padres. No puedo
mentir, aún no lo soy y tampoco sé qué tiene Dios preparado para mi vida.
No me apresuro. Creo completamente que cada quien lleva su ritmo, y que estoy equivocada
si quiero compararme con el de los demás. Si no es ahora, lo será algún día; mientras
tanto, me preparo para llegar a mis objetivos. Normalmente solemos creer que quien va
adelante, va mejor o tiene más ventaja, sin tener en cuenta que todos tenemos condiciones
y situaciones distintas.
Veo en el espejo y veo potencial, veo más seguridad. Estoy en un momento en el que puedo
darme cuenta de ello, y que no necesito aprobación y aceptación por parte de alguien para
saber que estoy haciendo las cosas bien. Casi siempre esperamos comentarios positivos
sobre lo que hacemos, que no llegarán tan fácilmente por más que queramos.
Ahora sí puedo decir con más contundencia que soy una mujer negra de dieciocho años con
ganas de entrar y entender el mundo, que no se avergüenza de su color de piel y su cabello
como solía hacerlo antes, que puede tomar decisiones sin poner en riesgo mi integridad
personal.
Agradecida estoy con Dios y con la vida por ayudarme a ser quien soy. El tiempo se ha
encargado de poner las cosas en su lugar. Todos esos acontecimientos buenos y malos han
hecho la persona que ven hoy en día. La influencia de mis padres y personas claves han
sido realmente importantes en este arduo trabajo como lo es aprender a sobrevivir. Soy una
obra en proceso, una pluma y un tintero para seguir escribiendo mi propia historia, mi propia
realidad. Así fui, así soy y así seré.
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Foto: Rodrigo reffer
La simplicidad del existir / A simplicidade da existência
Natalia Carmona Morales
Foto: Heder Novaes
Aprender a amar.
Aprender a vivir.
Aprender a morir.
Empezamos de cero.
Un día solo nacemos,
al segundo siguiente vivimos
y luego llega lo inevitable,
el momento de morir.
Pero ¿existimos en realidad o es un invento?
Los latidos del corazón
son la prueba innata de que existimos,
de que este cuerpo físico,
pequeño y frágil,
está lleno de espíritu.
Existir es sencillo.
Es hacer todo por aprender fácil las ideas del mundo.
Es hacer todo tan simple como sea posible.
Es enseñar a otros lo simple que es existir
y fue aún más sencillo cuando lo comprendí.
La sensación de facilidad
vive en mí y es satisfactoria;
se lo debo al dueño y señor de la existencia;
porque confío en Él.
Tenemos una conexión astral
que es inquebrantable
y aunque no lo veo,
siento su existir.
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Las artes son lenguajes de la “intimidad” de las culturas y las sensibilidades
de la memoria de los pueblos. La obra que hoy se entrega al público comporta
movilidades milenarias recreadas, agencias de la reinvención en los hilos de la
historia, y promete la profundización de los lazos de África y sus diásporas hacia un
descolonizado agenciamiento en la contemporaneidad y en el porvenir.
Dr. Yeison Arcadio Meneses Copete
Embajador de Colombia en Etiopía
/
As artes são linguagens da “intimidade” das culturas e as sensibilidades da
memória dos povos. A obra que hoje é entregue ao público envolve mobilidades
milenares recriadas, agências de reinvenção nos fios da história, e promete
aprofundar os laços entre a África e suas diásporas rumo a um agenciamento
descolonizado na contemporaneidade e no porvir.
Dr. Yeison Arcadio Meneses Copete
Embaixador da Colômbia na Etiópia
www.djumbaiala.com
Este viaje textual nos lleva por caminos de transformación corporal-emocional-espiritual
que abren horizontes a la imaginación creativa de artistas afrodescendientes de
Colombia y Brasil. A través de una sinergia de medios artísticos como poesía, documental,
memorias, performances coreográficos y musicales, el/la lector/a-espectador/a-oyente
acompaña los movimientos de los cuerpos, los recuerdos, los sueños y las ilusiones de las
personas mientras deambulan por territorios geográficos complejos donde se enfrentan
a nuevas corrientes, cobran impulso, ocasionalmente son amenazadas con disolverse
indefinidamente, sólo para resurgir, adquirir nuevos matices y florecer. La colección es
producto de una investigación-acción participativa que explora y experimenta modos
de co-creación de conocimientos, reflexionando sobre la (re-)existencia individual y
colectiva por medio de prácticas artísticas en comunidades periferizadas.
Essa viagem textual nos leva por caminhos de transformação corporal-emocional-
espiritual que abrem horizontes para a imaginação criativa de artistas afrodescendentes
da Colômbia e do Brasil. Por via de uma sinergia de meios artísticos como poesia,
documentário, memórias, performances coreográficas e musicais, o/a leitor/a-
espectador/a-ouvinte acompanha os movimentos dos corpos, as lembranças, os sonhos
e as ilusões das pessoas enquanto elas meandram por territórios geográficos complexos
onde enfrentam novas correntes, ganham impulso, ocasionalmente são ameaçadas
de dissolver-se indefinidamente, apenas para ressurgir, adquirir novas tonalidades
e florescer. A coleção é produto de uma pesquisa-ação participativa que explora e
experimenta modos de cocriação de conhecimentos, refletindo sobre a (re-)existência
individual e coletiva por meio de práticas artísticas em comunidades periferizadas.
Subjects
People & roles
- list of authors
- Gruber, Valerie
- Place of publication
- Conceição da Feira, Bahia
Origins & context
- Title
- Todo Rio Resiste Mar : Cartografias de Memorias Afrolatinas
- Publication type
- Book
- Language
- Spanish
- Funded by
- Bundesministerium für Bildung und Forschung
- Deutsche Forschungsgemeinschaft
- EXC2052/1 Africa Multiple, DFG Project number 390713894
- Publisher
- Andarilha Edições
- Year
- 2023
- number of pages
- 175
- Relation
- Related publication
- DjumbaiALA: Dialoge afrikanischer und afro-diasporischer Wissensformen im multimedialen Zeitalter
Rights & access
- Access Rights
- Open access
Identifiers & sources
- Source ID (eref-/epub-)
- eref-88690
- ISBN
- 978-65-84611-13-9
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